Bonenkai 2012

Um bōnenkai (忘年会) é uma confraternização japonesa que ocorre no final do ano, e é realizado geralmente entre grupos de colegas de trabalho ou de amigos. A finalidade da confraternização, como seu nome implica, é esquecer as consternações e os problemas do ano passado. Um bōnenkai não ocorre em nenhum dia específico, mas são realizados geralmente em dezembro. Bonen – Despedida do Ano Velho. Kai – Reunião, Festa.

As entidades, as empresas, os amigos costumam se reunir para comemorarem a despedida do ano que está terminando, para se encontrarem pela última vez do ano, trocar cumprimentos, avaliar o ano e num ambiente de festa bebendo e comendo muito. Alguns começam a realizar o Bonenkai, já no fim do mês de novembro, pois em dezembro é comum encavalar muitas festas, que podem ser simples “kais” que são reuniões ou “enkais” que são banquetes. Portanto são eventos muito comuns na Comunidade Nikkey, herdado da Cultura do Japão que não dá muita ênfase às comemorações do Natal.

Wikipedia

Catie Haven da Community Tool Box nos lembra da importância de celebrar independente dos imprevistos ou conflitos. Enquanto um grupo existir e trabalhar para o seu desenvolvimento, esse esforço deve ser reconhecido. Nós não temos controle sobre o que vai acontecer conosco, apenas como vamos reagir. Mais importante do que atingir metas é nunca desistir. Uma metáfora que pode fazer sentido para maioria é:

Não importa quantas vezes você é derrubado. O que importa é se você vai levantar ou ficar no chão.

Celebramos nos momentos felizes e difíceis por reconhecer o empenho de tantos no grupo, para reforçar os laços de amizade e refletir sobre o passado e sobre  momentos de transição.

Embu – encarando o desafio

No primeiro embu que participei com o meu melhor aluno, representando o Takeuchi-ryu, eu ouvi outro participante dizer, antes dela pisar no embujo (área de demonstração): “Bem, eu estou indo para batalha.”

No início, meu aluno achava que era uma hipérbole de brincadeira. Mas ela não estava brincando. Seu embu realmente parecia que era uma batalha entre ela e seu parceiro. Eles partiam para cima um do outro, desafiando os limites do kata previamente combinado, como se cada corte importasse, cada bloqueio perdido conduzisse à morte. Provavelmente invisível ao público em geral, houve momentos em que um bloqueio foi perdido e quando um corte seguiu o caminho errado, levando a um membro golpeado. Mas nenhum deles hesitou ao longo de todo o embu.

Isso me trouxe à mente uma história que eu ouvi uma vez do falecido Dr. Sachio Ashida, um professor de judô (e professor de comportamento animal, daí a denominação de Doutor). Perguntei-lhe como era o Judo antes da guerra. Ele disse que era mais como um budo, menos como um esporte. Para dar um exemplo, ele disse que uma vez viu uma demonstração de Nage no Kata em um All Japan Judo antes da Segunda Guerra Mundial, onde o imperador estava na plateia. Ashida sensei estava num camarote. Ele viu dois mestres de judô realizarem um kata. Durante o kata, houve uma sutemi-waza, um arremesso em que o tori cai no chão a fim de puxar e jogar o parceiro sobre seu corpo caindo. O uke, no entanto, se desequilibrou e enquanto fazia o rolamento para a frente, Ashida viu claramente que ele inadvertidamente chutou a cara do tori. Mas os dois continuaram o kata como se nada estivesse errado. Eles terminaram, cumprimentaram-se, fizeram a reverência ao imperador e sairam do palco. Ashida disse que só depois de terem deixado o palco, a pessoa que executou o tori cuspiu o seu dente da frente que o chute tinha arrancado no meio do Embu.

“Esse era o espírito do judô real”, disse Ashida.”Naqueles dias, fazer embu era vida ou morte, especialmente se você fez isso na frente do imperador.”

Para que não pareça que eu estou defendendo um retorno a esse tipo de dureza física, o que eu quero dizer é que, mesmo hoje em dia, embu deve ser considerado um assunto sério e profundo, que deve ser um desafio para os participantes.

Durante o treinamento regular, você deve manter o sentimento e atitude adequados, para ganhar habilidade e sua movimentação funcione. Para que o seu trabalho com armas ou desarmado atinja um nível de combate real, mesmo que habilidades de combate sejam arcaicas atualmente. A atitude mental adequada só acontece se você vivenciar o treino de kata além da diversão e brincadeira. Realizar Embu tem essa atmosfera multiplicada muitas vezes por causa da pressão envolvida ao fazer o kata na frente de estranhos, seu instrutor e colegas de treino.

Inevitavelmente, por causa dessa pressão adicional, você vai falhar. Como você reage, também é um desafio que o treino adequado e Embu oferecem. Como em uma situação de combate real, nem tudo vai de acordo com o kata. O que acontece quando o kata falha, seja por circunstâncias externas (como escorregar na grama molhada) ou por erro humano (como o seu parceiro indo para um lado em vez do outro)? A pessoa mal treinada vai ficar simplesmente paralizada. Mas fazer isso no Embu ou na vida real vai te matar, mesmo que apenas simbolicamente.

Eu estava assistindo dois espadachins passar por um kata estranhamente longo durante seu Embu. Ao término, eu disse ao estudante Junior (que era o “tori”), “Cara, que kata interessante. Eu nunca tinha visto um tão longo em seu estilo:

Demorou  muito porque o meu sensei estava totalmente desligado. Acho que ele tinha muita coisa na cabeça, ele entrou de forma errada, a partir de um kata diferente, então eu tive que bloquear o corte e reagir. Eu olhei em seus olhos e ele estava perdido. Acho que ele estava pensando muito sobre outra coisa. Então ele viu o meu corte, e ele apenas reagiu e tentou bloquear e cortar, então eu tentei outro bloqueio e outro corte, e ele reagiu, então eu reagi, e apenas continuei até que eu finalmente o atingi … com força … no pulso. Isso meio que tirou seu transe.

Você sabe que realmente treinou bem quando você pode se recuperar de imprevistos sem hesitar. Eu ouso dizer que, apenas alguns dos meus alunos, até agora, alcançaram esse nível, mas tenho certeza que se eles continuarem treinando, eles podem chegar lá, desde que eles tenham a atitude correta.

Um Embu vale mil sessões de treinamento.

Quando eu fui convidado pela primeira vez para participar de um Takeuchi-ryu Embu, eu lembro do meu professor me falando de provérbio acima. Ele me incentivou a fazer o Embu, sobre os erros que fariam parte e como eu aprenderia com eles. De fato, se feito com que a mente de “ir para a batalha.” Se for encarado com toda a seriedade e senso de propósito necessária.

Uma oportunidade para todos, jovens e velhos, qualificados e experientes ou iniciantes, a desafiar-se igualmente sem ter um único vencedor e sem relegar o restante a ser “perdedor”.

Adaptado do artigo Embu: going into battle publicado originalmente no blog Classic Budoka.

A tradição da demonstração de artes marciais

Embu pode ser traduzido como uma “apresentação de habilidades marciais.” O que evoluiu para se tornar uma demonstração pública do estilo característico. Às vezes é apenas um dojo. Às vezes vários grupos se reúnem em grandes encontros anuais. Nesses eventos não há participação direta do público.

Por mais divertido que seja estar num Embu, por mais que seja maravilhosa a camaradagem que se cria entre os companheiros de dojo e até mesmo com pessoas de outros koryu, os Embu são assuntos sérios. Você está demonstrando para pessoas de fora, o melhor de suas habilidades, como representante de seu ryu. No koryu atual, este é o mais próximo que se pode chegar de um situação estressante competitiva em público, desde que os aspectos esportivos do koryu foram adaptados para judô, kendô e outros shinbudo modernos.

Embu, provavelmente, remonta a uma época em que as escolas de artes marciais ainda eram relativamente relevantes em habilidades aplicáveis ​​em combate para guerreiros em treinamento. Considerando que você nunca sabia qual província você podia acabar lutando na próxima guerra civil, ou quais grupos de samurais. Um dojo normalmente guardava suas técnicas do público em geral a maior parte do tempo. Você não queria mostrar a assinatura de seus métodos e táticas para inimigos potenciais ou eles poderiam usar isso contra você mais tarde.

A única exceção geral para isso era quando você era convidado a ser parte de uma “demonstração oficial”, na frente de um senhor daimyo ou da realeza ou como oferenda às divindades da vila, ou alguma outra ocasião especial semelhante. Devido a essa característica histórica, embu é considerado um assunto respeitoso e sério.

Neste vídeo, há um grande número de expectadores. Para os participantes, no entanto, uma grande pressão é colocada sobre eles e não apenas porque muitas pessoas estão assistindo, mas porque as próprias divindades estão assistindo, eles estão realizando embu como oferenda aos espíritos. E, claro, há a pressão prática de não fazer papel de bobo na frente de outros praticantes que conseguem notar as suas falhas.

Adaptado do artigo Embu: going into battle publicado originalmente no blog Classic Budoka.

Atingindo a faixa preta

Pense sobre perder a faixa preta, e não em ganhá-la. Sawaki Kodo, um mestre zen, freqüentemente dizia “Ganhar é sofrimento, perder é iluminação”. Se alguém perguntar a diferença entre praticantes de hoje e do passado, eu responderia que os praticantes do passado viam o treinamento como “perda”. Eles abandonavam tudo por sua arte e sua prática, famílias, trabalho, segurança, fama, dinheiro, para desenvolverem-se a si próprios. Hoje, eles apenas pensam em ganhar. “Eu quero isso, eu quero aquilo”. Nós queremos praticar artes marciais mas também queremos dinheiro, fama, telefones celulares e tudo que qualquer um possa ter.

Quando o estudante olha o seu treinamento do ponto de vista da perda em vez do ganho, ele se aproxima do espírito da maestria, e verdadeiramente torna-se valoroso como faixa preta. Só quando você finalmente desiste de seus pensamentos sobre exames de faixas, troféus, fama, dinheiro, e a própria maestria na arte, você alcança que o mais importante é sua PRÁTICA. Seja humilde, seja gentil, cuide dos outros e ponha a todos adiante de você. Estudar arte marcial é estudar você mesmo seu verdadeiro EU. Isto nada tem a ver com graduações. Um grande mestre zen disse uma vez: “Estudar o EU é esquecer o EU. Esquecer o EU é compreender todas as coisas”.

Texto original do SHINZEN SHINBUN 3 encontrado no manual do praticante de ki-aikido enviado por Joel Coelho.

Uma ponte entre o Aikido e as danças circulares

Desde o começo do curso de formação no Move o Mundo, eu pude perceber a afinidade do Aikido com as danças circulares. Já no primeiro módulo após algumas danças e exercícios, tivemos um momento para refletir sobre a consciência/intencionalidade dos movimentos e a percepção de unidade. Além, é claro, do componente em comum mais óbvio que é a circularidade.

A roda ou qualquer movimento circular, como girar sobre o eixo do próprio corpo, ajuda a pessoa a se autocentrar e a se equilibrar.

Psicóloga Glaucia Rodrigues
Coordenadora do Centro de Estudos Universais

Isso é de grande relevância para o Aikido. Passamos muito tempo repetindo as movimentações básicas que serão eficazes em boa parte das situações. O treinamento contínuo permite que tenhamos uma resposta mais natural. Entretanto, é essencial manter-se consciente do porquê realizar o movimento, para poder adaptá-lo quando necessário.

Também é comum realizarmos técnicas pensando na deflexão, na neutralização do ataque e no controle do parceiro como eventos isolados. Entender a mecânica e os detalhes de cada componente pode ajudar, mas quando tratados como momentos completamente independentes eles são inúteis e sem sentido. É preciso experimentá-los como um conjunto indissociável.

Recentemente, desenvolvi, em parceria com Isabel Rogoski, minha primeira vivência/exercício para o grupo de danças circulares  fazendo o caminho inverso. Tentando demonstrar como o equilíbrio do ponto de vista do Aikido pode enriquecer a roda. Partindo do equilíbrio individual em nosso centro físico de massa (Seika Tanden) com a projeção do ki. Passando pelo equilíbrio quando estamos conectados com um parceiro. E finalmente quando estamos em roda com um grupo.

Reconhecer o nosso centro em cada situação e tê-lo sempre como nossa referência é fundamental para tornar o nosso movimento harmonioso tanto no Aikido como nas danças circulares.

Colocados em círculo, percebemos a nossa identidade com o outro pois, ao mesmo tempo em que reconhecemos a nossa igualdade – a unidade que habita no centro – também acolhemos a presença única e insubstituível de cada um que está colocado em pé na linha da circunferência

William Valle
focalizador e coreógrafo de danças circulares

Agradeço ao meu mestre William Valle, em nome de todo grupo, por me ajudar a desenvolver novas habilidades em sintonia com os princípios da harmonia e não-resistência e pela oportunidade de compartilhar na roda um pouco da minha própria bagagem.