Atingindo a faixa preta

Pense sobre perder a faixa preta, e não em ganhá-la. Sawaki Kodo, um mestre zen, freqüentemente dizia “Ganhar é sofrimento, perder é iluminação”. Se alguém perguntar a diferença entre praticantes de hoje e do passado, eu responderia que os praticantes do passado viam o treinamento como “perda”. Eles abandonavam tudo por sua arte e sua prática, famílias, trabalho, segurança, fama, dinheiro, para desenvolverem-se a si próprios. Hoje, eles apenas pensam em ganhar. “Eu quero isso, eu quero aquilo”. Nós queremos praticar artes marciais mas também queremos dinheiro, fama, telefones celulares e tudo que qualquer um possa ter.

Quando o estudante olha o seu treinamento do ponto de vista da perda em vez do ganho, ele se aproxima do espírito da maestria, e verdadeiramente torna-se valoroso como faixa preta. Só quando você finalmente desiste de seus pensamentos sobre exames de faixas, troféus, fama, dinheiro, e a própria maestria na arte, você alcança que o mais importante é sua PRÁTICA. Seja humilde, seja gentil, cuide dos outros e ponha a todos adiante de você. Estudar arte marcial é estudar você mesmo seu verdadeiro EU. Isto nada tem a ver com graduações. Um grande mestre zen disse uma vez: “Estudar o EU é esquecer o EU. Esquecer o EU é compreender todas as coisas”.

Texto original do SHINZEN SHINBUN 3 encontrado no manual do praticante de ki-aikido enviado por Joel Coelho.

A parábola da faixa preta

Parábola interessante para qualquer um que já acreditou que chegou ou está chegando no fim do caminho.

Imagine um lutador de artes marciais ajoelhado na frente do mestre sensei, numa cerimônia para receber a faixa preta obtida com muito suor. Depois de anos de treinamento incansável, o aluno finalmente chegou ao auge no êxito da disciplina.

“Antes que eu lhe dê a faixa você tem que passar por outro teste” , diz o sensei.
“Eu estou pronto”, responde o aluno, talvez esperando pelo último assalto da luta. “Você tem que responder à pergunta essencial: qual é o verdadeiro significado da faixa preta?”
O fim da minha jornada“, responde o aluno, “uma recompensa merecida pelo meu bom trabalho”.
O sensei espera mais. É óbvio que ainda não está satisfeito. Por fim, o sensei fala: “Você ainda não está pronto para a faixa preta. Volte daqui a um ano.”

Um ano depois, o aluno se ajoelha novamente na frente do sensei.
“Qual é o verdadeiro significado da faixa preta?”, pergunta o sensei.
“Ela significa a excelência e o nível mais alto que se pode atingir em nossa arte.” responde o aluno.
O sensei não diz nada durante vários minutos, esperando. É óbvio que ainda não está satisfeito. Por fim ele fala: ” você ainda não está pronto para a faixa preta. Volte daqui a um ano.”

Um ano depois, o aluno se ajoelha novamente na frente do sensei e mais uma vez o sensei pergunta: “qual é o verdadeiro significado da faixa preta?”
“A faixa preta representa o começo – o início da jornada sem fim de disciplina, trabalho e a busca por um padrão cada vez mais alto.” , responde o aluno.
“Sim. Agora você está pronto para receber a faixa preta e iniciar o seu trabalho!”

Enviado por Marcio Sensei por email

As duas primeiras respostas são formas de pensar bastante comuns, seja você um aikidoca ou não. Para muitos, a “faixa preta” simboliza uma meta a ser alcançada. Um fim em si mesmo.

Essa parábola nos faz refletir sobre os momentos de estagnação que passamos quando nos encontramos numa zona de conforto. Contrariando um dos maiores princípios da natureza, o ciclo constante de renovação, passando inclusive pela fase de destruição (de ideias estabelecidas, práticas consolidadas, conceitos adquiridos, hábitos inconscientes, atitudes passivas…).

…na verdade, a faixa preta é o primeiro degrau. É como aprender a ler e depois nunca mais abrir um livro.

Masafumi Sakanachi
O desafio do conflito

Se a faixa preta simboliza algo, certamente não é privilégio, status ou um mérito alcançado. Ela simboliza disciplina e compromisso que devem estar refletidas em cada ação do cotidiano. Por isso não se ganha a faixa preta, nem se possui a faixa preta. Pode-se apenas ser faixa preta, para cada nova situação enfrentada, dia após dia.

A hora da prática de Aikido

Hoje em dia vivemos uma busca incessante pela novidade, pelo melhor, pelo mais rápido, pelo mais avançado… uma busca pela perfeição. Isso traz inevitavelmente uma sensação constante de frustração. Atingir a perfeição é impossível. Logo, nunca ficamos satisfeitos. E se fosse possível atingi-la, já imaginou o tédio saber que você não pode fazer nada para melhorar.

Mais ou menos no meio da minha terceira aula de Aikido, meu professor fez a demonstração de tai no henko, o mais fundamental dos movimentos combinados da arte. Sem um instante de reflexão, eu me ouvi dizendo:”Nós já praticamos essa técnica”. A observação não provocou sequer uma resposta, mas apenas um sorriso levemente divertido. Minha entrega foi definitiva, desde então já pratiquei o tai no henko umas cinquenta mil vezes.
Na verdade, a essência do tédio está na busca obsessiva da novidade. A satisfação está na repetição consciente, na descoberta de riquezas intermináveis nas sutis variações de temas familiares.

George Leonard – Maestria

Segundo Joyce Reed, a perfeição é a maior inimiga da excelência. Pois excelência implica em superar a si mesmo num eterno processo, mas não em alcançar metas. Contudo, por causa dessa cobrança constante em chegar ao topo, nós não nos permitimos “perder tempo”. Estamos deixando de fazer algo simplesmente porque acreditamos ou porque satisfaz nossa alma.

…Fui percebendo claramente o aumento significativo dos níveis de estresse e ansiedade em alunos universitários. Em todo país, os estudantes estão enchendo os consultórios psicológicos preocupados em não corresponder às próprias expectativas. Os professores estão perplexos pelo foco desesperado em notas em vez do processo de aprendizagem.

Joyce Reed – What Really Matters

Infelizmente, nossos atos estão voltados para obtenção de reconhecimento, para sermos devidamente recompensado pela sociedade. Só o que conta são os momentos que podemos objetivamente verificar que estamos “subindo na vida” ou obtendo certificados e capacitações para ser aceito no mercado.

A gente acorda de manhã e se arruma depressa, toma café depressa, vai para o trabalho depressa. Nada disso conta. São horas entre as práticas.
Mas a maior parte do tempo, nós estamos fazendo coisas como essas. Existem duas opções. Ou o que você está fazendo é algo que prejudica você e você deveria mudar essa prática. Ou você passa a praticar Aikido também durante esses momentos. Na verdade, só existe a segunda opção, pois mesmo quando faz algo que pretende mudar, você deve assumir uma postura não-conflitante.

George Leonard – Maestria

No fragmento de texto acima, o autor fala sobre o prazer que se pode ter em treinar Aikido e da ansiedade gerada pelo desejo em chegar ao treino o mais rápido possível. Ao considerar todo o resto como secundário, a vida se torna vazia. Imagine quantas horas por dia alguém assim perde. Simplesmente passa pela vida, sem vivê-la.

Isso vale para qualquer um. A chamada “prática” pode não ser o Aikido. Pode ser o encontro com a pessoa amada. Pode ser o tempo gasto no trabalho (que é bem diferente de emprego). Pode ser sair com os amigos a noite ou mais um monte de coisa. Mas todos nós vivemos a maior parte do tempo entre esses momentos especiais, fazendo coisas triviais: comendo, deslocando-se, encontrando desconhecidos, cuidando da nossa casa, passando tempo com a família, lavando louça, tratando feridas entre tantas outras atividades corriqueiras. Todo esse tempo entre as “práticas” também são momentos únicos e precisam ser vividos de forma consciente, intencional e pacífica.

A excelência de Joyce ou a Maestria de George emergem naturalmente ao se permitir apreciar os detalhes do cotidiano e se esforçar em encontrar sua vocação e fazer o que você sabe que é certo, independente do modelo imposto pela sociedade.

Treinando ou não uma arte marcial, todas essas horas podem ser também uma prática de Aikido.

Responsabilidades

Na sociedade japonesa, a relação entre Senpai X Kohai costuma ultrapassar o ambiente formal de educação.

O mestre não escolhe um discípulo apenas por sua excelência técnica. Um discípulo será muito mais que um lutador, será seu representante, perpetuará seu legado, e, para tanto, muitos outros elementos são considerados, o comprometimento e dedicação de um aluno, por exemplo, tem um peso infinitamente maior, são os aspectos da personalidade de um indivíduo que dirão que conhecimentos podem ser confiados a ele.

Sensei Mariana França
Gouki Shinryu Heihou

À medida que você progride na prática do Aikido, também passa a ser uma referência para os mais novos. Portanto, obter o direito de usar um hakama ou atingir o nível de faixa preta não é meramente um desenvolvimento pessoal. Tampouco significa obtenção de privilégios. Pelo contrário, é o reconhecimento de sua maturidade para servir a sua comunidade.

Usando a metáfora da pirâmide invertida. No começo você está no topo, olhando para o céu (buscando melhorar) e todos estão por baixo apoiando você. Com o passar do tempo, você vai descendo para a base da pirâmide e continua olhando para o céu. Mas agora você consegue enxergar e servir cada vez mais pessoas do seu grupo.

Ao manter-se no caminho, vamos percebendo com maior clareza que num grupo unido todos estão sujeitos voluntariamente ao mesmo conjunto de obrigações, deveres e tarefas. E estamos constantemente aprendendo como contribuir.