Shoshin & Empatia

Em geral, o espírito Shoshin está associado a uma atitude que favorece a aquisição de conhecimento. Usa-se a metáfora do copo que nunca está cheio e portanto é sempre capaz de reter algo mais. Esforçando-se em encarar, como se fossem novidades, fatos e ações do cotidiano. Mantendo de forma suave, o senso crítico e a atenção aos detalhes que poderiam passar despercebidos.

Mas existe uma outra dimensão desse mesmo espírito de inciante que se refere ao modelo de comunicação não-violenta desenvolvida pelo psicólogo Marshall Rosenberg. Para estabelecer uma conexão de forma empática com outras pessoas é preciso manter a mente limpa de preconceitos. O que eu quero dizer com isso?

Não estou me referindo àquelas pessoas que encontramos pela primeira vez e por causa da sua cor da pele, sexo, idade, roupa, sotaque ou qualquer outro aspecto externo, nós imediatamente julgamos saber o que esperar dessa pessoa ou a enquadramos em algum estereótipo. Dizer que é contraproducente pressupor essas coisas de pessoas desconhecidas  seria chover no molhado. Qualquer um com um pouco de bom senso sabe disso.

Pelo contrário, estou falando justamente dos nossos amigos mais próximos e da nossa família. Um exemplo claro disso é o fato de sermos muito menos tolerantes com nossos próprios filhos do que com nossos vizinhos. Simplesmente porque julgamos que sempre sabemos o que é melhor para eles. Evitar trazer consigo todo o conhecimento prévio que temos a respeito das pessoas bem como nossas ideias e teorias particulares , pode ser uma forma eficaz de resolução de conflitos:

  • Esforçar-se em ser claro para não correr o risco de criar expectativa a respeito de algo que nem foi compreendido pela outra parte. Mesmo convivendo há muito tempo, algumas coisas podem ser óbvias apenas para você.
  • Permitir-se o diálogo sem antecipar o comportamento do outro com pensamentos do tipo: “Nem adianta falar, eu já sei o que ele vai responder” ou “Ele não vai conseguir de novo”.
  • Não presumir que você já entendeu o problema completamente e você sabe exatamente  o que o outro deve fazer para resolvê-lo.

Ou seja, para criar empatia é preciso manter um espírito shoshin. Receptivo e com o copo vazio.

Se você encara o outro com compaixão, você fortalece tanto a pessoa quanto você.

Tanabata Keiko 2012

Anteontem, dia 07 de agosto, foi realizado um treino especial no ginásio que nos permitiu fazer uma prática um pouco mais dinâmica, sem se preocupar com paredes e espelhos.




O Tanabata Matsuri (festival das estrelas) celebra a história de um jovem casal que se encontra somente uma vez por ano, no sétimo dia do sétimo mês do calendário lunar, desde que cumprissem a ordem de atender todos os pedidos vindos da Terra nesta data.

Na mitologia japonesa, este casal é representada por estrelas situadas em lados opostos da galáxia, que realmente só são vistas juntas uma vez por ano: Vega (Orihime) e Altair (Kengyu).

O festival que celebra esta história de amor teve início na Corte Imperial do Japão há cerca de 1.150 anos, e lá tornou-se feriado nacional em 1603. No Brasil o primeiro festival Tanabata foi realizado na cidade de Assaí no Estado do Paraná no ano de 1978.


Obrigado ao grupo de Aikido da FUNCEL, à coordenação de esportes da FUNCEL, ao Shoshin Dojo, à minha esposa e enfim a todos que participaram e de alguma forma contribuiram com a organização e preparação para que esse treino fosse possível.

Um outro caminho

O americano Terry Dobson foi um dos poucos ocidentais a ter oportunidade de treinar diretamente com o fundador como uchi-deshi entre 1959 até 1969.  Até o fim da sua breve vida Dobson Sensei se dedicou ao Aikido e à resolução pacífica de conflitos. Logo abaixo segue um dos seus textos mais populares:

Minha vida sofreu uma guinada  num dia em um trem no subúrbio de Tóquio, no meio de uma tarde preguiçosa de primavera. O vagão velho chiava e sacudia sobre os trilhos. Estava relativamente vazio, tinha algumas donas de casa com seus filhos, alguns velhos a caminhos das compras e uns dois atendentes de bar de folga. Eu olhava distraidamente para as casas sem graça e empoeiradas.

Em uma estação as portas se abriram, e de repente a tarde calma foi quebrada por um homem que gritava a plenos pulmões, gritando palavrões violentos, obscenos e incompreensíveis. Assim que as portas fecharam, o homem ainda gritando, cambaleou no nosso vagão. Ele era grande, estava bêbado e sujo. Ele usava roupas de trabalhador. Seu rosto estava rígido de vômito seco. Seus olhos emanavam uma cor vermelha demoníaca. Seu cabelo estava coberto de sujeira. Gritando, ele avançou para a primeira pessoa que viu, uma mulher segurando um bebê. O golpe resvalou no ombro dela, jogando-a no colo de um casal de idosos. Foi um milagre que o bebê não se machucou.

O casal saltou e se deslocou para a outra extremidade do vagão. Eles estavam aterrorizados. O trabalhador tentou um chute na parte de trás da velha senhora. “VOCÊ puta velha!”, Ele berrou: “Eu vou chutar o seu traseiro!” Ele errou, a velha afundou para a segurança. Isto enfureceu o bêbado de tal maneira que ele agarrou a haste de metal no centro do carro e tentou arrancá-lo do chão. Eu podia ver que uma de suas mãos estava cortada e sangrando. O trem balançou na frente, os passageiros paralisados ​​de medo. Levantei-me.

Eu era jovem e estava em boa forma. Tinha 1,85m e pesava mais de 100kg. Eu estava treinando oito horas de Aikido todos os dias durante os últimos três anos. Eu gostava de jogar e agarrar. E me achava durão. O problema era minha habilidade marcial nunca havia sido testada em combate real. Como estudantes de Aikido, não tínhamos permissão para lutar.

Meu professor, o fundador do Aikido, nos ensinava a cada manhã que a arte foi dedicada à paz. “Aikido”, ele sempre dizia “, é a arte da reconciliação. Quem tem a mente para combater rompeu sua ligação com o universo. Se você tentar dominar outras pessoas, você já está derrotado. Nós estudamos como resolver conflitos, não como iniciá-lo. ”

Eu escutei suas palavras. Eu tentei muito. Eu queria parar de lutar. Eu cheguei ao ponto de atravessar a rua algumas vezes para evitar os chimpira, os punks de pinball que descansava em torno das estações de trem. Eles ficariam felizes em testar a minha habilidade marcial. Minha paciência me exaltava. Eu me sentia forte e santo. No fundo do meu coração, no entanto, eu estava morrendo de vontade de ser um herói. Eu queria uma chance, uma oportunidade absolutamente legítima em que eu pudesse salvar os inocentes destruindo os culpados.

“É isso aí!” Eu disse a mim mesmo me pondo de pé. : Este pateta, este animal, é bêbado, mal e violento. As pessoas estão em perigo. Se eu não fizer algo rápido, alguém provavelmente vai se machucar. Vou mostrar pra ele o que é bom pra tosse. ”

Vendo-me levantar, o bêbado viu a oportunidade de concentrar sua raiva. “AHA!”, Ele rugiu, “um estrangeiro! Você precisa de uma lição de boas maneiras japonesas! “Ele deu um soco no poste de metal uma vez para dar peso às suas palavras.

Agarrei-me levemente na alça sobre a minha cabeça. Dei-lhe um olhar de nojo e de desprezo. Eu pretendia partir este peru no meio, mas ele tinha que dar o primeiro passo. E eu queria ele louco, pois quanto mais raiva, mais certa era a minha vitória. Apertei os lábios e soprei-lhe um beijo insolente. Isto lhe acertou como um tapa na cara. “Tudo bem! ele gritou, “você vai receber uma lição.” Ele se preparou para correr para cima de mim. Ele não ia nem saber o que o atingiu.

Uma fração de segundo antes dele se mexer, alguém gritou: “Ei!” Foi algo que realmente chamou a atenção. Lembro-me de ser atingido pela qualidade estranhamente alegre – como se você e um amigo estivessem procurando algo, e ele de repente tropeçasse em cima do objeto da busca. “Ei!”

Eu virei para a minha esquerda, o bêbado girou para a direita. Nós dois olhamos para um japonês velhinho. Ele devia ter bem mais de setenta anos, este pequeno cavalheiro, sentado lá imaculado em seu kimono e hakama. Ele não tomou conhecimento de mim, mas sorriu com prazer para o trabalhador, como se tivesse um segredo muito importante e agradável para compartilhar. “Vem cá”, disse o velho num vernáculo fácil, acenando para o bêbado: “Vem cá e fala comigo.” Ele acenou com a mão levemente. O grande homem seguiu, como se em uma corda. Ele plantou os pés de forma beligerante na frente do velho, e se aproximou ameaçadoramente sobre ele. “Falar com você,” ele rugiu acima do barulho das rodas batendo, “Por que diabos eu falaria com você?” O bêbado agora estava de costas para mim. Se os cotovelos se movessem um milímetro, eu o poria no chão.

O velho continuou a falar com o trabalhador. Não havia um traço de medo ou ressentimento nele. “O que você andou bebendo?”, Perguntou ele levemente, com os olhos brilhando de interesse. “Eu estava bebendo saquê,” o trabalhador berrou de volta: “E isso não te interessa, maldição!” Manchas de saliva respingaram sobre o velho.

“Oh, isso é maravilhoso”, disse o velho com prazer, “absolutamente maravilhoso! Você vê, eu adoro saquê. Toda noite, eu e minha esposa (ela tem 76, sabe), a gente aquece uma pequena garrafa de saquê e leva para o jardim, nos sentamos no banco de madeira velha que o primeiro aluno do meu avô fez para ele. Nós assistimos o sol se pôr, e esperamos para ver como anda a nossa árvore de caqui. Meu avô plantou essa árvore, você sabe, e nós nos preocupamos se ela vai se recuperar daquelas tempestades geladas do inverno passado. Caquis não gostam de tempestades de gelo, embora eu deva dizer que a nossa ficou muito melhor do que eu esperava, especialmente quando você considera a má qualidade do solo. Ainda assim, é gratificante vê-la quando levamos o nosso saquê e saimos para aproveitar a noite, mesmo quando chove! “Ele olhou para o trabalhador, com os olhos brilhando, feliz por partilhar sua preciosa informação.

Enquanto lutava para acompanhar os meandros da conversa do velho, o rosto do bêbado começou a amolecer. Seus punhos lentamente se abriram. “Sim,” ele disse lentamente, “Eu adoro caqui, também … Sua voz sumiu. “Sim”, disse o velho, sorrindo, “e tenho certeza que você tem uma esposa maravilhosa.”

“Não”, respondeu o trabalhador, “Minha esposa morreu.” Ele abaixou a cabeça. Muito delicadamente, balançando com o movimento do trem, o homem grande começou a chorar. “Eu não tenho esposa, eu não tenho casa, eu não tenho emprego, eu não tenho dinheiro, eu não tenho para onde ir. Eu estou tão envergonhado de mim mesmo. “As lágrimas rolaram pelo seu rosto, um espasmo de desespero puro percorreu seu corpo. Acima da prateleira bagagem um anúncio de quatro cores alardeou as virtudes de uma vida de luxo suburbana.

Agora era a minha vez. Estando lá na minha jovem inocência bem polida, minha justiça faça-este-mundo-seguro-para-democracia, de repente eu me senti mais sujo do que ele.

Só então, o trem chegou na minha parada. A plataforma estava lotada, e a multidão subiu no vagão, logo as portas se abriram. Ao trabalhar minha saída, ainda pude ouvir o velho com simpatia. “Ora, ora”, disse ele com igual jovialidade  “, esta é realmente uma situação muito difícil. Sente-se aqui e conte-me mais sobre isso. ”

Virei a cabeça para uma última olhada. O operário estava esparramado como um saco no banco, a cabeça no colo do velho. O velho olhou para ele com compaixão e alegria, uma mão acariciando a cabeça suja e emaranhada.

Enquanto o trem se afastava, sentei-me em um banco. O que eu queria fazer com músculos e maldade tinha sido realizado com algumas palavras gentis. Eu já tinha visto o Aikido ser testado em combate, e a essência era o amor, como o fundador tinha dito. Eu teria que praticar a arte com um espírito completamente diferente. Ainda ia levar muito tempo antes que eu pudesse falar sobre a resolução de conflitos.

Mente ativa X Mente passiva

O título deste texto é, na verdade, uma tentativa de traduzir os termos “mindfulness” e “mindlessness” empregados na pesquisa em psicologia experimental que a Dra. Ellen J. Langer (Harvard University) vem desenvolvendo desde a década de 70. Podendo ser definidos como:

Mindfulness
Um estado mental flexível no qual se está ativamente ligado ao presente, percebendo novidades e sensível ao contexto. Hábitos podem guiar nosso comportamento mas não predeterminá-lo.

Mindlessness
Ações pré-programadas de acordo com o que o que fez sentido no passado, não no presente. Presas a uma perspectiva rígida sem chances de notar formas alternativas de conhecimento.

De acordo com Langer, para estimular a mente ativa é preciso encarar as coisas com se fossem novas. Quando achamos que já sabemos algo bem ou não questionamos sua validade, tendemos a empregar uma mente passiva. Num dos seus experimentos, dois grupos foram apresentados ao mesmo objeto. Ao primeiro grupo foi dito que aquilo era um brinquedo de mastigar para cães. Ao segundo foi dito que aquilo poderia ser um brinquedo de mastigar para cães. Após algum tempo, surgiu a necessidade de usar uma borracha. Apenas participantes do segundo grupo consideraram usar o objeto como borracha.

Existe poder na incerteza, contudo muitos de nós buscam equivocadamente a certeza.

Ellen J. Langer
Mindful Learning


Esta visão sobre as formas de adquirir ou transmitir o conhecimento reforça a ideia de que realmente existe uma grande limitação na instrução oral específica e demonstra a importância de cada um ser consciente e responsável por suas escolhas.

Tradicionalmente, um instrutor de artes marciais não costuma oferecer explicações extensas ao demonstrar suas técnicas e evita correções constantes (a não ser que haja grandes riscos para quem está treinando). Isso é comumente interpretado como uma certa “avareza” em compartilhar o conhecimento e pode até ser considerado exótico.

Se me tivessem aconselhado a nunca questionar meus mestres, eu não teria durado muito como discípulo…

Pema Chödrön
Os lugares que nos assustam

Contudo, pesquisas científicas como essa da Dra. Langer, provam mais uma vez a coerência da sabedoria oriental. Este é o princípio do espírito Shoshin. Os praticantes são levados a buscar ativamente o conhecimento pelo fato de terem de “conquistá-lo” e não apenas receberem-no de graça, assimilando-o de forma mais profunda e siginificativa. Ao evitar instruções muito específicas abre-se espaço para evolução e adaptação do conhecimento. Uma prova contundente disto é a enorme popularidade (e aplicabilidade) das artes marciais numa sociedade e contexto tão diferente do qual elas surgiram.

Receptividade

Quando a ideia de começar um novo grupo de treino estava realmente tomando corpo, confesso que me senti um pouco apreensivo. Não muito pela capacidade técnica (apesar de estar ciente das minhas limitações e investir um tempo nisso também). A pulga atrás da orelha era mais uma preocupação em apresentar os preceitos do bushido de forma muito ostensiva e acabar transformando o Patricio aikidoka em algo artificial e distante do Patricio fora do tatame. Afinal de contas, o grupo é formado por colegas já conhecidos, alguns mais velhos em idade do que eu.

Pensando nisso hoje, vejo que a preocupação maior era justamente não poder ter controle sobre os acontecimentos. Em relação à técnica bastava estudar e praticar, o resultado era em grande parte previsível. Mas como lidar com a atitude que não é um treinamento explícito (apesar de reconhecer que esteve presente em cada um dos treinos desde que pisei no tatame pela primeira vez) nem tem hora definida para acontecer? Como diria Richard Carlson no livro “Desacelerando para a velocidade da vida“, nós estamos habituados a usar o pensamento lógico e racional onde todas as variáveis do problema são conhecidas. Mas existe uma outra forma de pensar (flowing mode) que é muito mais eficiente para problemas com variáveis desconhecidas. No final das contas, acredito que os dois não eram tão diferentes assim.

Acabei descobrindo que, na verdade, estar num grupo como esse é uma grande vantagem. É bastante comum que na presença de shihans ou aikidokas muito mais experientes ou mais velhos, as pessoas se sintam intimidadas em emitir uma opinião, crítica ou sugestão. Entretanto, além do nosso grupo ser formado por pessoas respeitáveis, estamos próximos o suficiente para permitir a espontaneidade.

Isso me fez lembrar de uma pequena história sobre um sábio líder espiritual. Ele era amplamente respeitado e todos queriam lhe agradar. No entanto, ele tinha uma secretária grosseira que não fazia questão de lhe prestar favores e por muitas vezes lhe detratava. Muitos seguidores ficavam indignados com a falta de respeito, afinal de contas, muitos ficariam honrados em poder servi-lo e perguntaram porque ele mantinha essa secretária. Ele respondeu que ela era a única pessoa no mundo que lhe fazia lembrar que ele era apenas humano.

Longe de achar que posso me comparar ao Dalai Lama mas ciente que posso facilmente me acomodar numa zona de conforto, isso tudo me fez perceber duas coisas. Primeiro, é preciso se manter ao lado de pessoas que possam mostrar o nosso lado negativo e os nossos defeitos (sejam amigos sinceros ou sejam pessoas que não têm intenção de ajudar). Segundo, à medida que se avança no caminho, é preciso cultivar ainda mais uma atitude simples – shoshin, permitindo que as pessoas saibam que cada um tem voz ativa, independentemente de quanto tempo se está no caminho.

Quanto custa o Aikido?

A grande maioria dos praticantes de aikido já deve ter escutado que o conhecimento não tem preço e não pode ser vendido. O próprio Ô-Sensei desencorajava qualquer um que quisesse fazer do Aikido sua fonte exclusiva de dinheiro. Apesar disso, a cobrança de uma mensalidade é uma prática bastante comum em grupos de Aikido por todo o mundo.

Obviamente existem os custos materiais que precisam ser cobertos para se manter um dojo funcionando. Porém, o excedente fica como pagamento para o instrutor. Alguns dojocho fazem questão de investir parte do (ou todo) dinheiro excedente no próprio grupo, em atividades como: promoção de confraternizações, patrocínio de seminários ou viagens, flexibilização de taxas para alunos de baixa renda entre outras coisas.

Essas, certamente, são atitudes louváveis e deveriam estar presentes em qualquer grupo de Aikido. Dentro da lógica de mercado, esta parece ser a única alternativa para a troca mercantil fria e impessoal entre contratante e contratado. Uma segunda opção poderia ser, talvez, cobrar taxas tão baixas que apenas quitassem os custos; ou até mesmo dar aulas de graça. Pessoalmente, eu acredito que isto poderia ter um efeito colateral indesejado. Poderia dar a entender que o Aikido tem pouco valor e/ou atrair praticantes sem muito comprometimento. Pelo contrário: o aikido não pode ser vendido por ser algo gratuito e sim por ter um valor inestimável.

Pode parecer algo contraditório afirmar que algo não pode ser vendido mas em seguida definir um preço a ser pago. Seja ele alto, baixo ou alto mesmo igual a zero. Para refletir sobre essa questão de forma mais abrangente, vou assumir uma perspectiva histórica usando como referência uma teoria sociológica apresentado no “Ensaio sobre a Dádiva“:

As sociedades progrediram na medida em que elas próprias, os seus subgrupos e, enfim, os seus indivíduos, souberam estabilizar suas relações: dar, receber e finalmente retribuir. Para comercializar, tinham primeiro que saber depor as lanças. Foi então que teve êxito a troca de bens e entre pessoas, não apenas de clãs para clãs, mas de tribos para tribos e de nações para nações, sobretudo de indivíduo para indivíduo. Foi só depois que as pessoas souberam criar para si, satisfazer interesses mútuos e, enfim, defendê-los sem terem que recorrer às armas. Assim, o clã, a tribo, os povos souberam – e é assim que amanhã no nosso mundo dito civilizado, as classes, as nações e também os indivíduos devem saber – opor-se sem se massacrarem e dar-se sem se sacrificarem uns aos outros. Aí está um dos segredos permanentes de sua sabedoria e solidariedade.

Marcel Mauss
Ensaio Sobre a Dádiva

O Budô, caminho do guerreiro, é normalmente traduzido como um “cessar de lanças”. O termo ganha uma nova conotação após a leitura da passagem acima. O Budô não é apenas um caminho para prevenção de guerras ou neutralização de agressões como aprendemos no Aikido desde o começo. Ele é também a condição inicial para permitir a troca que, segundo Levi Strauss: “constitui o fenômeno fundador da vida social”. Ou seja o relacionamento humano entre indivíduos por meio de seus dons.

Inicialmente essa troca não era intermediada pelo dinheiro, era um intercâmbio direto de saberes e sentimentos. Alain Caillé define esses dons (ou dádivas) como a forma de circulação de bens (materiais, simbólicos, tangíveis ou não) na qual o primeiro objetivo é criar, recriar ou fortalecer os vínculos entre as pessoas ou grupos, empreendida sem a garantia de retorno. Qualquer um que já recebeu do vizinho um prato com meia torta de banana, é familiar a esse sentimento. Não devolver o prato vazio é uma “obrigação” e é até certo ponto esperado por quem ofereceu a torta em primeiro lugar.

Na concepção original, o vínculo se estabelece através da dádiva devido à tríplice obrigação de dar, receber e retribuir. Todavia, essa obrigação é paradoxal, tendo em vista que, para ser eficaz no estabelecimento do vínculo entre doador e receptor, a dádiva deve ser uma atitude espontânea por parte do primeiro (como também deve ser espontânea a retribuição).

Fábio Vizeu
Revista O&S

Portanto, a partir  dessa análise, é possível perceber que qualquer relação de troca é muito mais do que apenas sua utilidade (no caso específico do Aikido: eficiência como arte marcial, melhoria do condicionamento físico…) e sua avaliação quantitativa (no caso específico do Aikido: experiência do instrutor, quantidade de aulas…).

Qualquer tipo de troca que realizamos, usando ou não dinheiro, reflete uma visão de mundo, uma forma de se relacionar com as pessoas. Mesmo que não tenhamos consciência disso.

O gesto de recusar um presente ou uma gentileza (muitas vezes entendido em nossa sociedade como um ato de polidez) representa a recusa do ciclo da dádiva, em que recuso o bem para não me obrigar a retribuí-lo. Assim, ao recusar o bem, posso também estar recusando o apreço e, consequentemente, a suposição do doador de que eu e ele perduremos o vínculo entre nós.

Jacques Godbout

Obviamente que resgatar, ipsis litteris, a prática da dádiva como era realizada nas sociedades arcaicas pode ser algo inviável. Todavia, assim como o aikido que é uma arte marcial moderna construída a partir da sabedoria reunida ao longo dos séculos, os princípios da dádiva também podem encontrar sua aplicação nos dias de hoje.

A lógica do mercado é uma manifestação típica da sociedade competitiva que vivemos hoje em dia. A dádiva e o aikido se complementam como alternativas à hegemonia desse estilo de vida.