Atingindo a faixa preta

Pense sobre perder a faixa preta, e não em ganhá-la. Sawaki Kodo, um mestre zen, freqüentemente dizia “Ganhar é sofrimento, perder é iluminação”. Se alguém perguntar a diferença entre praticantes de hoje e do passado, eu responderia que os praticantes do passado viam o treinamento como “perda”. Eles abandonavam tudo por sua arte e sua prática, famílias, trabalho, segurança, fama, dinheiro, para desenvolverem-se a si próprios. Hoje, eles apenas pensam em ganhar. “Eu quero isso, eu quero aquilo”. Nós queremos praticar artes marciais mas também queremos dinheiro, fama, telefones celulares e tudo que qualquer um possa ter.

Quando o estudante olha o seu treinamento do ponto de vista da perda em vez do ganho, ele se aproxima do espírito da maestria, e verdadeiramente torna-se valoroso como faixa preta. Só quando você finalmente desiste de seus pensamentos sobre exames de faixas, troféus, fama, dinheiro, e a própria maestria na arte, você alcança que o mais importante é sua PRÁTICA. Seja humilde, seja gentil, cuide dos outros e ponha a todos adiante de você. Estudar arte marcial é estudar você mesmo seu verdadeiro EU. Isto nada tem a ver com graduações. Um grande mestre zen disse uma vez: “Estudar o EU é esquecer o EU. Esquecer o EU é compreender todas as coisas”.

Texto original do SHINZEN SHINBUN 3 encontrado no manual do praticante de ki-aikido enviado por Joel Coelho.

Shoshin & Empatia

Em geral, o espírito Shoshin está associado a uma atitude que favorece a aquisição de conhecimento. Usa-se a metáfora do copo que nunca está cheio e portanto é sempre capaz de reter algo mais. Esforçando-se em encarar, como se fossem novidades, fatos e ações do cotidiano. Mantendo de forma suave, o senso crítico e a atenção aos detalhes que poderiam passar despercebidos.

Mas existe uma outra dimensão desse mesmo espírito de inciante que se refere ao modelo de comunicação não-violenta desenvolvida pelo psicólogo Marshall Rosenberg. Para estabelecer uma conexão de forma empática com outras pessoas é preciso manter a mente limpa de preconceitos. O que eu quero dizer com isso?

Não estou me referindo àquelas pessoas que encontramos pela primeira vez e por causa da sua cor da pele, sexo, idade, roupa, sotaque ou qualquer outro aspecto externo, nós imediatamente julgamos saber o que esperar dessa pessoa ou a enquadramos em algum estereótipo. Dizer que é contraproducente pressupor essas coisas de pessoas desconhecidas  seria chover no molhado. Qualquer um com um pouco de bom senso sabe disso.

Pelo contrário, estou falando justamente dos nossos amigos mais próximos e da nossa família. Um exemplo claro disso é o fato de sermos muito menos tolerantes com nossos próprios filhos do que com nossos vizinhos. Simplesmente porque julgamos que sempre sabemos o que é melhor para eles. Evitar trazer consigo todo o conhecimento prévio que temos a respeito das pessoas bem como nossas ideias e teorias particulares , pode ser uma forma eficaz de resolução de conflitos:

  • Esforçar-se em ser claro para não correr o risco de criar expectativa a respeito de algo que nem foi compreendido pela outra parte. Mesmo convivendo há muito tempo, algumas coisas podem ser óbvias apenas para você.
  • Permitir-se o diálogo sem antecipar o comportamento do outro com pensamentos do tipo: “Nem adianta falar, eu já sei o que ele vai responder” ou “Ele não vai conseguir de novo”.
  • Não presumir que você já entendeu o problema completamente e você sabe exatamente  o que o outro deve fazer para resolvê-lo.

Ou seja, para criar empatia é preciso manter um espírito shoshin. Receptivo e com o copo vazio.

Se você encara o outro com compaixão, você fortalece tanto a pessoa quanto você.

Um outro caminho

O americano Terry Dobson foi um dos poucos ocidentais a ter oportunidade de treinar diretamente com o fundador como uchi-deshi entre 1959 até 1969.  Até o fim da sua breve vida Dobson Sensei se dedicou ao Aikido e à resolução pacífica de conflitos. Logo abaixo segue um dos seus textos mais populares:

Minha vida sofreu uma guinada  num dia em um trem no subúrbio de Tóquio, no meio de uma tarde preguiçosa de primavera. O vagão velho chiava e sacudia sobre os trilhos. Estava relativamente vazio, tinha algumas donas de casa com seus filhos, alguns velhos a caminhos das compras e uns dois atendentes de bar de folga. Eu olhava distraidamente para as casas sem graça e empoeiradas.

Em uma estação as portas se abriram, e de repente a tarde calma foi quebrada por um homem que gritava a plenos pulmões, gritando palavrões violentos, obscenos e incompreensíveis. Assim que as portas fecharam, o homem ainda gritando, cambaleou no nosso vagão. Ele era grande, estava bêbado e sujo. Ele usava roupas de trabalhador. Seu rosto estava rígido de vômito seco. Seus olhos emanavam uma cor vermelha demoníaca. Seu cabelo estava coberto de sujeira. Gritando, ele avançou para a primeira pessoa que viu, uma mulher segurando um bebê. O golpe resvalou no ombro dela, jogando-a no colo de um casal de idosos. Foi um milagre que o bebê não se machucou.

O casal saltou e se deslocou para a outra extremidade do vagão. Eles estavam aterrorizados. O trabalhador tentou um chute na parte de trás da velha senhora. “VOCÊ puta velha!”, Ele berrou: “Eu vou chutar o seu traseiro!” Ele errou, a velha afundou para a segurança. Isto enfureceu o bêbado de tal maneira que ele agarrou a haste de metal no centro do carro e tentou arrancá-lo do chão. Eu podia ver que uma de suas mãos estava cortada e sangrando. O trem balançou na frente, os passageiros paralisados ​​de medo. Levantei-me.

Eu era jovem e estava em boa forma. Tinha 1,85m e pesava mais de 100kg. Eu estava treinando oito horas de Aikido todos os dias durante os últimos três anos. Eu gostava de jogar e agarrar. E me achava durão. O problema era minha habilidade marcial nunca havia sido testada em combate real. Como estudantes de Aikido, não tínhamos permissão para lutar.

Meu professor, o fundador do Aikido, nos ensinava a cada manhã que a arte foi dedicada à paz. “Aikido”, ele sempre dizia “, é a arte da reconciliação. Quem tem a mente para combater rompeu sua ligação com o universo. Se você tentar dominar outras pessoas, você já está derrotado. Nós estudamos como resolver conflitos, não como iniciá-lo. ”

Eu escutei suas palavras. Eu tentei muito. Eu queria parar de lutar. Eu cheguei ao ponto de atravessar a rua algumas vezes para evitar os chimpira, os punks de pinball que descansava em torno das estações de trem. Eles ficariam felizes em testar a minha habilidade marcial. Minha paciência me exaltava. Eu me sentia forte e santo. No fundo do meu coração, no entanto, eu estava morrendo de vontade de ser um herói. Eu queria uma chance, uma oportunidade absolutamente legítima em que eu pudesse salvar os inocentes destruindo os culpados.

“É isso aí!” Eu disse a mim mesmo me pondo de pé. : Este pateta, este animal, é bêbado, mal e violento. As pessoas estão em perigo. Se eu não fizer algo rápido, alguém provavelmente vai se machucar. Vou mostrar pra ele o que é bom pra tosse. ”

Vendo-me levantar, o bêbado viu a oportunidade de concentrar sua raiva. “AHA!”, Ele rugiu, “um estrangeiro! Você precisa de uma lição de boas maneiras japonesas! “Ele deu um soco no poste de metal uma vez para dar peso às suas palavras.

Agarrei-me levemente na alça sobre a minha cabeça. Dei-lhe um olhar de nojo e de desprezo. Eu pretendia partir este peru no meio, mas ele tinha que dar o primeiro passo. E eu queria ele louco, pois quanto mais raiva, mais certa era a minha vitória. Apertei os lábios e soprei-lhe um beijo insolente. Isto lhe acertou como um tapa na cara. “Tudo bem! ele gritou, “você vai receber uma lição.” Ele se preparou para correr para cima de mim. Ele não ia nem saber o que o atingiu.

Uma fração de segundo antes dele se mexer, alguém gritou: “Ei!” Foi algo que realmente chamou a atenção. Lembro-me de ser atingido pela qualidade estranhamente alegre – como se você e um amigo estivessem procurando algo, e ele de repente tropeçasse em cima do objeto da busca. “Ei!”

Eu virei para a minha esquerda, o bêbado girou para a direita. Nós dois olhamos para um japonês velhinho. Ele devia ter bem mais de setenta anos, este pequeno cavalheiro, sentado lá imaculado em seu kimono e hakama. Ele não tomou conhecimento de mim, mas sorriu com prazer para o trabalhador, como se tivesse um segredo muito importante e agradável para compartilhar. “Vem cá”, disse o velho num vernáculo fácil, acenando para o bêbado: “Vem cá e fala comigo.” Ele acenou com a mão levemente. O grande homem seguiu, como se em uma corda. Ele plantou os pés de forma beligerante na frente do velho, e se aproximou ameaçadoramente sobre ele. “Falar com você,” ele rugiu acima do barulho das rodas batendo, “Por que diabos eu falaria com você?” O bêbado agora estava de costas para mim. Se os cotovelos se movessem um milímetro, eu o poria no chão.

O velho continuou a falar com o trabalhador. Não havia um traço de medo ou ressentimento nele. “O que você andou bebendo?”, Perguntou ele levemente, com os olhos brilhando de interesse. “Eu estava bebendo saquê,” o trabalhador berrou de volta: “E isso não te interessa, maldição!” Manchas de saliva respingaram sobre o velho.

“Oh, isso é maravilhoso”, disse o velho com prazer, “absolutamente maravilhoso! Você vê, eu adoro saquê. Toda noite, eu e minha esposa (ela tem 76, sabe), a gente aquece uma pequena garrafa de saquê e leva para o jardim, nos sentamos no banco de madeira velha que o primeiro aluno do meu avô fez para ele. Nós assistimos o sol se pôr, e esperamos para ver como anda a nossa árvore de caqui. Meu avô plantou essa árvore, você sabe, e nós nos preocupamos se ela vai se recuperar daquelas tempestades geladas do inverno passado. Caquis não gostam de tempestades de gelo, embora eu deva dizer que a nossa ficou muito melhor do que eu esperava, especialmente quando você considera a má qualidade do solo. Ainda assim, é gratificante vê-la quando levamos o nosso saquê e saimos para aproveitar a noite, mesmo quando chove! “Ele olhou para o trabalhador, com os olhos brilhando, feliz por partilhar sua preciosa informação.

Enquanto lutava para acompanhar os meandros da conversa do velho, o rosto do bêbado começou a amolecer. Seus punhos lentamente se abriram. “Sim,” ele disse lentamente, “Eu adoro caqui, também … Sua voz sumiu. “Sim”, disse o velho, sorrindo, “e tenho certeza que você tem uma esposa maravilhosa.”

“Não”, respondeu o trabalhador, “Minha esposa morreu.” Ele abaixou a cabeça. Muito delicadamente, balançando com o movimento do trem, o homem grande começou a chorar. “Eu não tenho esposa, eu não tenho casa, eu não tenho emprego, eu não tenho dinheiro, eu não tenho para onde ir. Eu estou tão envergonhado de mim mesmo. “As lágrimas rolaram pelo seu rosto, um espasmo de desespero puro percorreu seu corpo. Acima da prateleira bagagem um anúncio de quatro cores alardeou as virtudes de uma vida de luxo suburbana.

Agora era a minha vez. Estando lá na minha jovem inocência bem polida, minha justiça faça-este-mundo-seguro-para-democracia, de repente eu me senti mais sujo do que ele.

Só então, o trem chegou na minha parada. A plataforma estava lotada, e a multidão subiu no vagão, logo as portas se abriram. Ao trabalhar minha saída, ainda pude ouvir o velho com simpatia. “Ora, ora”, disse ele com igual jovialidade  “, esta é realmente uma situação muito difícil. Sente-se aqui e conte-me mais sobre isso. ”

Virei a cabeça para uma última olhada. O operário estava esparramado como um saco no banco, a cabeça no colo do velho. O velho olhou para ele com compaixão e alegria, uma mão acariciando a cabeça suja e emaranhada.

Enquanto o trem se afastava, sentei-me em um banco. O que eu queria fazer com músculos e maldade tinha sido realizado com algumas palavras gentis. Eu já tinha visto o Aikido ser testado em combate, e a essência era o amor, como o fundador tinha dito. Eu teria que praticar a arte com um espírito completamente diferente. Ainda ia levar muito tempo antes que eu pudesse falar sobre a resolução de conflitos.

Mente ativa X Mente passiva

O título deste texto é, na verdade, uma tentativa de traduzir os termos “mindfulness” e “mindlessness” empregados na pesquisa em psicologia experimental que a Dra. Ellen J. Langer (Harvard University) vem desenvolvendo desde a década de 70. Podendo ser definidos como:

Mindfulness
Um estado mental flexível no qual se está ativamente ligado ao presente, percebendo novidades e sensível ao contexto. Hábitos podem guiar nosso comportamento mas não predeterminá-lo.

Mindlessness
Ações pré-programadas de acordo com o que o que fez sentido no passado, não no presente. Presas a uma perspectiva rígida sem chances de notar formas alternativas de conhecimento.

De acordo com Langer, para estimular a mente ativa é preciso encarar as coisas com se fossem novas. Quando achamos que já sabemos algo bem ou não questionamos sua validade, tendemos a empregar uma mente passiva. Num dos seus experimentos, dois grupos foram apresentados ao mesmo objeto. Ao primeiro grupo foi dito que aquilo era um brinquedo de mastigar para cães. Ao segundo foi dito que aquilo poderia ser um brinquedo de mastigar para cães. Após algum tempo, surgiu a necessidade de usar uma borracha. Apenas participantes do segundo grupo consideraram usar o objeto como borracha.

Existe poder na incerteza, contudo muitos de nós buscam equivocadamente a certeza.

Ellen J. Langer
Mindful Learning


Esta visão sobre as formas de adquirir ou transmitir o conhecimento reforça a ideia de que realmente existe uma grande limitação na instrução oral específica e demonstra a importância de cada um ser consciente e responsável por suas escolhas.

Tradicionalmente, um instrutor de artes marciais não costuma oferecer explicações extensas ao demonstrar suas técnicas e evita correções constantes (a não ser que haja grandes riscos para quem está treinando). Isso é comumente interpretado como uma certa “avareza” em compartilhar o conhecimento e pode até ser considerado exótico.

Se me tivessem aconselhado a nunca questionar meus mestres, eu não teria durado muito como discípulo…

Pema Chödrön
Os lugares que nos assustam

Contudo, pesquisas científicas como essa da Dra. Langer, provam mais uma vez a coerência da sabedoria oriental. Este é o princípio do espírito Shoshin. Os praticantes são levados a buscar ativamente o conhecimento pelo fato de terem de “conquistá-lo” e não apenas receberem-no de graça, assimilando-o de forma mais profunda e siginificativa. Ao evitar instruções muito específicas abre-se espaço para evolução e adaptação do conhecimento. Uma prova contundente disto é a enorme popularidade (e aplicabilidade) das artes marciais numa sociedade e contexto tão diferente do qual elas surgiram.

Receptividade

Quando a ideia de começar um novo grupo de treino estava realmente tomando corpo, confesso que me senti um pouco apreensivo. Não muito pela capacidade técnica (apesar de estar ciente das minhas limitações e investir um tempo nisso também). A pulga atrás da orelha era mais uma preocupação em apresentar os preceitos do bushido de forma muito ostensiva e acabar transformando o Patricio aikidoka em algo artificial e distante do Patricio fora do tatame. Afinal de contas, o grupo é formado por colegas já conhecidos, alguns mais velhos em idade do que eu.

Pensando nisso hoje, vejo que a preocupação maior era justamente não poder ter controle sobre os acontecimentos. Em relação à técnica bastava estudar e praticar, o resultado era em grande parte previsível. Mas como lidar com a atitude que não é um treinamento explícito (apesar de reconhecer que esteve presente em cada um dos treinos desde que pisei no tatame pela primeira vez) nem tem hora definida para acontecer? Como diria Richard Carlson no livro “Desacelerando para a velocidade da vida“, nós estamos habituados a usar o pensamento lógico e racional onde todas as variáveis do problema são conhecidas. Mas existe uma outra forma de pensar (flowing mode) que é muito mais eficiente para problemas com variáveis desconhecidas. No final das contas, acredito que os dois não eram tão diferentes assim.

Acabei descobrindo que, na verdade, estar num grupo como esse é uma grande vantagem. É bastante comum que na presença de shihans ou aikidokas muito mais experientes ou mais velhos, as pessoas se sintam intimidadas em emitir uma opinião, crítica ou sugestão. Entretanto, além do nosso grupo ser formado por pessoas respeitáveis, estamos próximos o suficiente para permitir a espontaneidade.

Isso me fez lembrar de uma pequena história sobre um sábio líder espiritual. Ele era amplamente respeitado e todos queriam lhe agradar. No entanto, ele tinha uma secretária grosseira que não fazia questão de lhe prestar favores e por muitas vezes lhe detratava. Muitos seguidores ficavam indignados com a falta de respeito, afinal de contas, muitos ficariam honrados em poder servi-lo e perguntaram porque ele mantinha essa secretária. Ele respondeu que ela era a única pessoa no mundo que lhe fazia lembrar que ele era apenas humano.

Longe de achar que posso me comparar ao Dalai Lama mas ciente que posso facilmente me acomodar numa zona de conforto, isso tudo me fez perceber duas coisas. Primeiro, é preciso se manter ao lado de pessoas que possam mostrar o nosso lado negativo e os nossos defeitos (sejam amigos sinceros ou sejam pessoas que não têm intenção de ajudar). Segundo, à medida que se avança no caminho, é preciso cultivar ainda mais uma atitude simples – shoshin, permitindo que as pessoas saibam que cada um tem voz ativa, independentemente de quanto tempo se está no caminho.

Quanto custa o Aikido?

A grande maioria dos praticantes de aikido já deve ter escutado que o conhecimento não tem preço e não pode ser vendido. O próprio Ô-Sensei desencorajava qualquer um que quisesse fazer do Aikido sua fonte exclusiva de dinheiro. Apesar disso, a cobrança de uma mensalidade é uma prática bastante comum em grupos de Aikido por todo o mundo.

Obviamente existem os custos materiais que precisam ser cobertos para se manter um dojo funcionando. Porém, o excedente fica como pagamento para o instrutor. Alguns dojocho fazem questão de investir parte do (ou todo) dinheiro excedente no próprio grupo, em atividades como: promoção de confraternizações, patrocínio de seminários ou viagens, flexibilização de taxas para alunos de baixa renda entre outras coisas.

Essas, certamente, são atitudes louváveis e deveriam estar presentes em qualquer grupo de Aikido. Dentro da lógica de mercado, esta parece ser a única alternativa para a troca mercantil fria e impessoal entre contratante e contratado. Uma segunda opção poderia ser, talvez, cobrar taxas tão baixas que apenas quitassem os custos; ou até mesmo dar aulas de graça. Pessoalmente, eu acredito que isto poderia ter um efeito colateral indesejado. Poderia dar a entender que o Aikido tem pouco valor e/ou atrair praticantes sem muito comprometimento. Pelo contrário: o aikido não pode ser vendido por ser algo gratuito e sim por ter um valor inestimável.

Pode parecer algo contraditório afirmar que algo não pode ser vendido mas em seguida definir um preço a ser pago. Seja ele alto, baixo ou alto mesmo igual a zero. Para refletir sobre essa questão de forma mais abrangente, vou assumir uma perspectiva histórica usando como referência uma teoria sociológica apresentado no “Ensaio sobre a Dádiva“:

As sociedades progrediram na medida em que elas próprias, os seus subgrupos e, enfim, os seus indivíduos, souberam estabilizar suas relações: dar, receber e finalmente retribuir. Para comercializar, tinham primeiro que saber depor as lanças. Foi então que teve êxito a troca de bens e entre pessoas, não apenas de clãs para clãs, mas de tribos para tribos e de nações para nações, sobretudo de indivíduo para indivíduo. Foi só depois que as pessoas souberam criar para si, satisfazer interesses mútuos e, enfim, defendê-los sem terem que recorrer às armas. Assim, o clã, a tribo, os povos souberam – e é assim que amanhã no nosso mundo dito civilizado, as classes, as nações e também os indivíduos devem saber – opor-se sem se massacrarem e dar-se sem se sacrificarem uns aos outros. Aí está um dos segredos permanentes de sua sabedoria e solidariedade.

Marcel Mauss
Ensaio Sobre a Dádiva

O Budô, caminho do guerreiro, é normalmente traduzido como um “cessar de lanças”. O termo ganha uma nova conotação após a leitura da passagem acima. O Budô não é apenas um caminho para prevenção de guerras ou neutralização de agressões como aprendemos no Aikido desde o começo. Ele é também a condição inicial para permitir a troca que, segundo Levi Strauss: “constitui o fenômeno fundador da vida social”. Ou seja o relacionamento humano entre indivíduos por meio de seus dons.

Inicialmente essa troca não era intermediada pelo dinheiro, era um intercâmbio direto de saberes e sentimentos. Alain Caillé define esses dons (ou dádivas) como a forma de circulação de bens (materiais, simbólicos, tangíveis ou não) na qual o primeiro objetivo é criar, recriar ou fortalecer os vínculos entre as pessoas ou grupos, empreendida sem a garantia de retorno. Qualquer um que já recebeu do vizinho um prato com meia torta de banana, é familiar a esse sentimento. Não devolver o prato vazio é uma “obrigação” e é até certo ponto esperado por quem ofereceu a torta em primeiro lugar.

Na concepção original, o vínculo se estabelece através da dádiva devido à tríplice obrigação de dar, receber e retribuir. Todavia, essa obrigação é paradoxal, tendo em vista que, para ser eficaz no estabelecimento do vínculo entre doador e receptor, a dádiva deve ser uma atitude espontânea por parte do primeiro (como também deve ser espontânea a retribuição).

Fábio Vizeu
Revista O&S

Portanto, a partir  dessa análise, é possível perceber que qualquer relação de troca é muito mais do que apenas sua utilidade (no caso específico do Aikido: eficiência como arte marcial, melhoria do condicionamento físico…) e sua avaliação quantitativa (no caso específico do Aikido: experiência do instrutor, quantidade de aulas…).

Qualquer tipo de troca que realizamos, usando ou não dinheiro, reflete uma visão de mundo, uma forma de se relacionar com as pessoas. Mesmo que não tenhamos consciência disso.

O gesto de recusar um presente ou uma gentileza (muitas vezes entendido em nossa sociedade como um ato de polidez) representa a recusa do ciclo da dádiva, em que recuso o bem para não me obrigar a retribuí-lo. Assim, ao recusar o bem, posso também estar recusando o apreço e, consequentemente, a suposição do doador de que eu e ele perduremos o vínculo entre nós.

Jacques Godbout

Obviamente que resgatar, ipsis litteris, a prática da dádiva como era realizada nas sociedades arcaicas pode ser algo inviável. Todavia, assim como o aikido que é uma arte marcial moderna construída a partir da sabedoria reunida ao longo dos séculos, os princípios da dádiva também podem encontrar sua aplicação nos dias de hoje.

A lógica do mercado é uma manifestação típica da sociedade competitiva que vivemos hoje em dia. A dádiva e o aikido se complementam como alternativas à hegemonia desse estilo de vida.

Para que servem os exames de faixa?

Investigar nossas motivações fazem toda a diferença do mundo em determinar como vamos atuar e até que ponto manteremos nossa perseverança. Eu gostaria de expor meu ponto de vista a respeito das motivações para a realização do exame de faixa.

Celebração
Antes de tudo, este é um momento de celebração do grupo. O aikidoka é indicado para o exame de faixa quando demonstra na sua prática diária que tem adquirido maturidade e é plenamente capaz, tecnicamente falando, de realizar os movimentos propostos.

Neste sentido, não é uma avaliação propriamente dita, pois não está sendo verificado o que o aikidoka sabe ou não sabe. Ele já pertence a faixa. É apenas um registro público deste fato. Isso não diminui a importância do evento nem permite que o aluno se apresente de qualquer jeito. O exame deve ser exemplar e refletir sua prática regular. Para a maioria das pessoas, essa tensão torna as coisas um pouco mais difíceis, mas é o que permite a superação pessoal.

Superação
Apesar da possibilidade de eventuais confrontos físicos fora do dojo, é perfeitamente normal passarmos uma vida inteira sem ter que brigar com alguém, sem ser vítima de um assalto ou qualquer outro tipo de agressor. Obviamente não é coerente para um artista marcial se colocar em situações de risco como essas deliberadamente apenas para testar suas habilidades.

Por outro lado, o treinamento constante num ambiente controlado e previsível pode se tornar extremamente artificial. O exame da faixa é uma dentre várias formas de trazer um pouquinho da vida real para dentro do dojo. Apesar de haver um certo controle que leva em conta a graduação e as capacidades individuais de cada aluno, à medida que avança no seu caminho, o exame se torna cada vez mais livre e imprevisível.

Os alunos devem cultivar um estado de espírito para que estejam sempre preparados. Se houver um certo grau de incerteza, os alunos irão mais cedo ou mais tarde se beneficiar disto. Os examinadores estão mais interessados na forma como o aluno lida consigo mesmo em uma situação inesperada (o que revela seu caráter) do que em seu conhecimento técnico no momento.

Patrick Augé Sensei

Assim como na vida real, a reação deve ser imediata. Não dá para parar e repetir como num mero ensaio. Esse estado de espírito diante da imprevisibilidade é fundamental para permitir que uma atitude como Ichi Go Ichi E emerja de uma forma mais natural.

Mostre-me o que você tem quando você não tiver mais nada – … Treinamos em um nível, especialmente em testes, onde exigimos do aluno muito mais do que ele achava que podia fazer. Embora isso possa ser desconfortável em muitos aspectos, treinar desta forma permite que cada pessoa tenha uma chance muito maior de sobrevivência caso enfrente alguém ou algum evento que possa colocar sua vida em risco.

Larry Reynosa Sensei

Cultivar uma atitude como essa, ainda é extremamente útil nos dias de hoje nas mais diversas situações corriqueiras, não apenas para eventuais confrontos físicos. Esse tipo de superação é facilmente identificável num colega de trabalho diligente, em qualquer pai que ama os seus filhos ou num ativista que vive por seus ideais. Dando um exemplo bem específico, qualquer um que já presenciou um parto normal sabe que costuma ser algo muito mais extenuante e doloroso do que um exame de faixa.

Portanto, a aquisição desses benefícios a longo prazo e a descoberta do que se é realmente capaz de fazer, é uma evolução motivada pelo processo.

Evolução
Com a expectativa do evento e a preocupação em ser capaz de refletir a prática diária em qualquer situação, os períodos que precedem os exames de faixa são caracterizados por um treinamento mais intensivo. Isso inevitavelmente leva a um refinamento técnico, um ganho na condição física como um todo e em muitos casos a uma transformação da atitude pessoal, visto que o praticante é levado a enfrentar alguns de seus medos e apesar do exame em si ser algo bastante individual, ele não está sozinho durante todo o processo em que precisa do apoio do grupo para treinar e demonstrar suas técnicas.

Na verdade, a evolução se dá de forma coletiva. O examinado é influenciado em maior ou menor grau pelos seus colegas de treino, reflete isso na sua prática e portanto representa todo o grupo. Poder cooperar com este processo de crescimento é bastante enriquecedor. Através do exemplo individual de cada examinado é possível buscar inspiração para o seu próprio caminho.

Cooperação
Uma das formas mais eficientes de transmissão de conhecimento. Se você acredita no que faz e compartilha isso com todos, isso se torna contagiante e inspirador, criando assim um círculo virtuoso.

O exame de faixa é uma grande oportunidade de aprendizado para todos, independentemente se são mais novos ou mais velhos que o examinado.

Se a gente deposita uma gota d’água sobre uma rocha ao sol, ela logo se evapora. Se a gente joga essa mesma gota num oceano ela nunca se perde. Portanto, o desejo é que não guardemos os ensinamentos para nós mesmos, em vez disso, usemos em benefício dos outros.

Pema Chödrön
Os lugares que nos assustam

Estar consciente que o seu exame afeta não apenas você mas todo o seu grupo é um passo importante para reconhecer suas responsabilidades.

Responsabilidade
Por todos os motivos já apresentados até aqui. O exame de faixa é também uma declaração, perante o grupo, que o aluno está consciente do que tem recebido e de sua crescente cumplicidade em relação aos demais.

Ele aceita ser celebrado pelo grupo. Ele se submete voluntariamente e com humildade ao imprevisível para buscar sua superação. Ele reconhece que sua evolução ao longo dos treinos é um processo interativo, ou seja, ao mesmo tempo que ele cresce por absorver cada vez mais o que os outros lhe mostram, ele também tem mais a oferecer à medida que o tempo passa e por isso é responsável pelo que os outros possam vir a aprender no seu convívio.

Tudo isso remete aos valores fundamentais do budo, também simbolizados nas dobras do hakama. Uma tradição construída ao longo dos séculos.

Tradição
Ter a chance de passar por um exame de faixa é honrar a lembrança dos que vieram antes de nós e perpetuar uma prática que julgamos coerente com nossos princípios. Admitindo que somos apenas uma ínfima parte de uma longa linhagem. Uma linhagem de algo grandioso.

Por tudo isso, o exame não deve ser encarado como uma simples prova de habilidades que classifica as pessoas em níveis ou que determina onde elas devem sentar ou que cor de faixa elas devem usar.

Avaliação
Se existe qualquer tipo de avaliação no sentido mais estrito da palavra, o examinado é o próprio instrutor. Apesar de cada um ser responsável por seu próprio caminho, a condução do grupo é sua atribuição e à medida que mais e mais aikidokas passam por esse processo é possível identificar cada vez mais claramente o estilo, as falhas, as virtudes e a atitude presente no Sensei, como ele próprio é moldado pelo grupo e na forma como administra o tempo investido nos treinos.


O real valor em se treinar Aikido é a oportunidade de construir algo que possui uma aplicação prática em outras áreas da sua vida. Durante o exame é um dos momentos em que se pode sentir essa conexão de forma mais intensa. Tente manter-se consciente a respeito disso, sem esquecer inclusive de ficar relaxado.

Aikido como Budo

Nota-se, claramente, uma grande lacuna no entendimento do Aikido que não vejo diminuir à medida que ele se desenvolve.

As pessoas fazem Aikido pelos mais variados motivos. Há muitas pessoas que não vão ser artistas marciais nesta vida. Elas não estão interessados nesse lado da arte. Ao contrário, elas estão interessados ​​em seguir o lado do movimento, o lado da energia, o lado que serve de modelo para a resolução de conflitos. Em alguns casos elas simplesmente gostam de fazer parte de uma comunidade de pessoas com o qual elas podem fazer uma prática interessante.

Não tenho qualquer problema com isso. Sua prática deve ser um reflexo de quem você é e quem você gostaria de ser. Quando as pessoas são claras consigo mesmas e com os outros e assumem que elas simplesmente não estão interessadas no lado marcial do Aikido, elas são livres para prosseguir sem qualquer crítica de minha parte.

Mas há pessoas que passaram muitos anos tentando manter o lado da arte que manifesta os princípios do Budo. A arte como ele foi apresentado a mim era tanto uma prática vital espiritual quanto uma arte marcial. É de suma importância para mim que as pessoas não interpretem erroneamente a natureza do que elas estão fazendo.

Há muitos de nós que olha para o que se chama de Aikido como nada mais do que uma arte da “força do pensamento”. Eu tenho visto pessoas voando no ar quando o nage estava a dez metros de distância. Eu já fiz técnicas em um uke que saiu voando pela sala com um movimento do meu pulso sabendo muito bem que a mesma técnica não teria efeito algum sobre qualquer um dos meus alunos. Eu, regularmente, entro no tatame com pessoas cujos ataques podem ter qualquer intenção, exceto acertar o defensor. Eu assisti uma vez como Ikeda Sensei recusou-se a mover até que o uke o acertasse de verdade. O uke que não conseguia dar o golpe. Ele sempre desviava o ataque no último segundo.

Todas estas pessoas tinham a impressão de que eles estavam praticando uma arte marcial. Mas o que estava acontecendo não tinha nada a ver com Budo. Os Fundadores das artes marciais modernas queria preservar os aspectos das artes marciais que podiam ser desenvolvidos através do treinamento dedicado. Eles reconheceram que o objetivo principal do treinamento não era mais o combate, a tecnologia moderna tornou isso irrelevante. No entanto, eles notaram que havia lições que o treinamento do Budo oferecia e eles não desejam ver isso desaparecer.

Aikido é precisamente uma dessas artes. O Fundador foi bastante específico sobre não querer que o Aikido fosse transformado num esporte. O treinamento dado aos seus alunos era do tipo mais extenuante. Ele certamente não via sua arte como uma forma de dança não-marcial sem aplicação prática.

Quando a arte é atenuada ao ponto onde de não haver mais qualquer realidade no treino, as lições de Budo estão ausentes. Então, quando há discussões nas quais é evidente que pessoas bem intencionadas fazem declarações imprecisas sobre Aikido, isso provoca uma resposta.

Este não é apenas uma questão de opinião. Filosofia, espiritualidade, variação técnica, são em grande parte as questões de preferência pessoal. Aplicação marcial não é. Você pode fazê-lo ou você não pode. Nos velhos tempos no Japão, se você  se colocasse como um professor, você poderia esperar que alguém iria aparecer à sua porta para ver se você consegue fazer o que fala. Se você não conseguisse, seus alunos tinham todo direito de cair fora.

Aqueles dias se foram. Então, tudo o que resta é a aplicação do senso comum, o desejo de adquirir conhecimento, tanto quanto possível, e um compromisso com a verdade na sua própria formação. Você tem que buscar parceiros que te acertem se conseguirem, que parem a sua técnica quando você cometer um erro e derrubem você quando tiverem uma brecha.

Eu tenho treinado com todos os professores Aikido que eu encontrei ao longo dos anos. Há uma gama enorme de foco e capacidade entre essas pessoas. Alguns podem fazer a sua técnica num contexto marcial e outros não podem. Alguns são marcialmente ferozes mas não são úteis como modelo para os valores que estou defendendo em minha vida. Um número pequeno pode fazer as duas coisas e esses são os professores com quem eu busco treinar. Exceto sair por todo o país desafiando outros artistas marciais para lutar, isso é o melhor que posso fazer. Quando professores que têm mais habilidade e experiência do que eu provavelmente jamais terei,  me dizem algo, eu tendo a acreditar neles. Quando eu vejo pessoas com uma fração de sua experiência ou até mesmo uma fração da minha própria experiência ignorando seus ensinamentos e sustentando que algumas coisas são possíveis e eu sei que elas não são, isso sim me deixa preocupado com o tipo de treinamento e o que isso significa para o arte no futuro.

Há pessoas que são altamente qualificados na técnica e no ensino. É uma pena que tantos alunos não possam notar a diferença entre o que é real em um nível fundamental e o que é simplesmente um caso de “A roupa nova do imperador”. Muitos dos melhores praticantes de Aikido que eu conheço têm passado por maus bocados porque simplesmente não há muitas pessoas interessadas em se esforçar a alcançar seu limite. Em vez disso, evitam desafios por puro preconceito, juntam-se apenas com aqueles que concordam com tudo que dizem e fazem uma prática divertida. Isto é exatamente o que deve ser feito se você deseja remover os elementos de transformação pessoal que existem na prática de um verdadeiro Budo.

O-Sensei desafiou todos nós a ver que havia uma mudança radical ao olhar para sua arte. Não fazia o menor sentido lhe dizer que a arte ia ser diluída, feita para ser um passatempo divertido para curiosos bem intencionados. E em parte, é isso que o Aikido se tornou. E eu não sei se algo vai mudar isso. Para as pessoas que se sentem atraídas por isso, o treinamento em Aikido como Budo não será seu caminho. Se as pessoas não querem aprender algo, ninguém pode fazê-los ver. Então, o Aikido continuará a se desenvolver de tal forma que apenas dizendo que você faz Aikido não terá significado. Em vez disso, você terá que especificar o tipo de Aikido que você faz, qual é a abordagem que você toma, quem é seu professor… Então, as pessoas poderão ter alguma ideia do que você está fazendo. Tem gente por aí fazendo Aikido que tem apenas uma semelhança superficial com o que estou fazendo. Ainda que ambos chamemos de Aikido. Isso vai continuar enquanto as pessoas treinarem sem querer saber o que eles podem e não podem realmente fazer, mas simplesmente desejam ser reconhecidas por seus esforços.

Publicado originalmente em inglês por George S. Ledyard.

Prática honesta

Um ladrão
Estou praticando com outro estudante. Alguém está conduzindo o treino, tentando fornecer as informações e práticas necessárias para, eventualmente, “possuir” a técnica do momento.

À minha esquerda tem uma faixa branca, um novo aluno faixa verde tem praticado conosco há alguns meses. O faixa branca está tendo problemas com a técnica. O faixa verde começa a ajudar, dizendo a faixa branca como corrigir o problema. Soa familiar? Em pouco tempo, o faixa branca passa a ter uma sessão de treinamento particular – muita conversa com pouca ação. O instrutor auto-declarado é um ladrão! O faixa verde tem a melhor das intenções, mas arrancou o aluno do treino, o professor do aluno, e o tempo da prática. Além disso, faixa verde raramente ensina. Eles têm muito a aprender e até mesmo com as melhores intenções, pouco a ensinar.

Um impostor
Estou praticando com outro estudante. Alguém está conduzindo o treino, tentando fornecer as informações e práticas necessárias para, eventualmente, “possuir” a técnica do momento.

O instrutor explica um conceito e um estudante à minha esquerda faz uma pergunta. Ele começa a frase com: “Então você quer dizer que …” com uma reformulação do que o instrutor já disse. Dá para notar que a questão não é uma pergunta honesta porque carrega uma expressão de dúvida. O aluno não quer saber a resposta. O estudante queria o reconhecimento pela compreensão, pela participação. Este estudante está fingindo estar interessado no que o professor tem a dizer, mas realmente quer ser percebido como alguém com conhecimento. O ego está no comando.

Outro aluno faz uma pergunta. O instrutor responde à pergunta, mas dá para ver que o aluno não está satisfeito com a resposta. O estudante reitera o que um instrutor anterior declarou. Este aluno quer que o instrutor (e os outros alunos) saibam que existem outras opiniões sobre como isso deve ser feito. Este estudante está fingindo contribuir com informações adicionais, mas na realidade, ele tem dúvidas sobre o instrutor. O ego está no comando.

Começamos a prática. Foi passada uma série específica de movimentos e todo mundo faz apenas o que foi pedido. Depois de um tempo uma dupla de estudantes começar a mudar o que estão fazendo. Outro par está parando para discutir cada sucesso e fracasso, e todo mundo acha que eles são muito ativos e participativos. Bem, sim, eles são. Mas cada um tem sua própria “agenda”. Eles estão se colocando como estudantes interessados, mas, na verdade, estão interessados ​​em gratificação pessoal e imediata. Eles não estão praticando, pois eles estão se exibindo. O ego está no comando.

Uma vítima
Estou praticando com outro estudante. Alguém está conduzindo o treino, tentando fornecer as informações e práticas necessárias para, eventualmente, “possuir” a técnica do momento.

Um estudante à minha esquerda queixa-se de um problema com a técnica. O instrutor sugere uma solução e pede aos alunos para tentar novamente. O estudante tenta, exagerando o problema ao mostrar o quanto é difícil. O instrutor sugere outra solução. O aluno quer que a técnica perfeita apareça como um passe de mágica, sem esforço. Uke enfraquece o ataque para dar uma melhor chance ao Nage. Nage é mais capaz agora, e bem sucedido contra um ataque menos eficaz. Nage se sente melhor, enquanto a técnica sofre. Nage e Uke trocam suas posições. O praticamente que havia sido Nage ataca de modo que a técnica aplicada exige uma queda truncada. Quando o aluno reclama do excesso de força, Nage reduz o foco do ataque para poupar Uke. Uke finge a queda. A técnica sofre, o risco é removido, e a realidade desapareceu. O aluno pode ficar bem na fita (para alguns) sem se sentir ameaçado e sem incomodar ninguém. O aluno é uma vítima – uma vítima do desejo de obter algo sem dar nada em troca.

Um charlatão
Estou praticando com outro estudante. Alguém está conduzindo o treino, tentando fornecer as informações e práticas necessárias para, eventualmente, “possuir” a técnica do momento.

Quando a prática se torna mais difícil, fica trabalhosa demais para um estudante à minha direita. O aluno precisa de um copo de água. O parceiro desse aluno tem que esperar até a volta do aluno, e eles começam a praticar novamente. O aluno assume o papel de Nage. O parceiro é um bom Uke, atacando de forma sincera, mas o Nage não se voluntariar para ser Uke. O professor seleciona uma outra técnica e uma mudança de parceiros. O aluno assume novamente o papel de Nage. Depois de um tempo o professor grita: “Troquem as duplas” e o tal aluno precisa de outro copo de água. Lembro-me deste ser o aluno que sempre chega logo após o fim da faxina do dojo, na manhã de sábado. Este é também o estudante que teve que sair um pouco antes do projeto que estava planejado desde a semana passada. Mas esse aluno é um político de alto nível – um estudante maravilhoso de ter por perto, a menos que você exija alguém que esteja disposto a “andar o caminho (walk the walk)”.

Então, quem é esse aluno?
Provavelmente todos nós. O ladrão, o impostor, a vítima e o charlatão são a besta interior, o ego. Aquele pedaço de nós que está sempre em busca de gratificação, afago, moleza e reconhecimento.

Nós somos todos ladrões. Todos nós queremos o reconhecimento, por isso roubamos um pouco do tempo de todos para obtê-lo, mesmo que seja de alguém que ainda não sabe o que está acontecendo. E todos nós temos nossos joguinhos mentais quando somos o impostor. Nossa mente é uma coisa maravilhosamente inteligente e enganadora. Ela chega a nos fazer pensar que estamos sendo honestos. Mas raramente é uma mente aberta. Nosso copo raramente está vazio. Nossos egos nos impedem de nos submetermos à vontade dos outros. Isso ajudou a sobrevivência da espécie, mas é um desastre no processo de aprendizagem. Muitas vezes encarnamos o papel de vítima. A mente está sempre procurando o caminho mais fácil. Se acreditarmos no que sentimos, a mente vai nos fazer sentir que o caminho de menor desconforto e maior gratificação é a única opção. Mentimos para nós mesmos para justificar a mentira que compartilhamos com os outros. O charlatão é um ladrão muito hábil, que também é um impostor e se justifica pondo a culpa no mundo ou nos outros.

É terminal? Não mais do que a vida. Mas devemos estar preparados, porque todos nós somos alunos. Nenhum de nós está imune a nossas próprias mentes. Devemos sempre verificar os nossos motivos – verificar nossa verdadeira motivação quando agimos (ou reagimos), porque estas são apenas algumas das formas que a besta interior da “justificativa” vai assumir. Na verdade, enquanto você lê isto, você vai lembrar de ter visto alguns desses alunos sobre o tatame. Mas você se lembra de vê-los no espelho? Não se sua besta interior está no comando.

Mas o Aikido não é justamente a respeito disso? Nossa prática nos dá uma oportunidade de expor a fera, onde podemos identificá-la, desnudá-la, e esmagá-la até a morte. Então podemos calar a boca e praticar. Claro que ela vai estar de volta em outra forma, mas e daí? Esta é uma busca ao longo da vida inteira.

Publicado originalmente em inglês por Jim Zimmerdahl.

O significado de Onegai Shimasu

Onegai shimasu” é uma frase difícil de traduzir diretamente para o português. A segunda parte “shimasu” é basicamente o verbo “suru“, que significa fazer, conjugado no tempo presente. “Onegai” vem do verbo “negau“, que significa literalmente orar por (algo) ou desejar (algo). A partícula “O” no início é o honorífico que torna a frase mais respeitosa. É claro que nós nunca diríamos essa frase em particular sem ele, mas é isso que ele representa. (Não confunda esse “O” com o “O” em O-sensei. O de O-Sensei é realmente “Oo”, significando grande ou grandioso).

Na cultura japonesa, usamos “onegai shimasu” em várias situações diferentes. A conotação básica é o sentimento  de boa vontade em relação ao encontro num futuro próximo das duas partes relacionadas. Por isso, às vezes é como dizer:

Eu estou esperando que nosso relacionamento traga boas coisas no futuro.

Usa-se isso durante comemoração de ano novo, dizendo “kotoshi mo yoroshiku onegai shimasu” que pode ser traduzido do japonês como:

Espero que este ano nossos laços se fortaleçam.

Ou ainda

Desejo que nosso relacionamento seja duradouro neste ano.

A expressão também pode assumir a conotação de um pedido de forma polida. Como no nosso uso regular nos treinos: “Por favor deixe-me treinar com você.” É uma solicitação frequentemente usada para pedir a outra pessoa para lhe ensinar, e que você está pronto para aceitar o ensinamento dessa pessoa.

Só uma dica em relação a pronúncia. A sílaba final “su” tem um som parecido com o “s” da palavra gás. O “u” não tem um som muito evidente.

Referências:
About.com
Aikiweb
Centro de Difusión del Aikido