Embu – encarando o desafio

No primeiro embu que participei com o meu melhor aluno, representando o Takeuchi-ryu, eu ouvi outro participante dizer, antes dela pisar no embujo (área de demonstração): “Bem, eu estou indo para batalha.”

No início, meu aluno achava que era uma hipérbole de brincadeira. Mas ela não estava brincando. Seu embu realmente parecia que era uma batalha entre ela e seu parceiro. Eles partiam para cima um do outro, desafiando os limites do kata previamente combinado, como se cada corte importasse, cada bloqueio perdido conduzisse à morte. Provavelmente invisível ao público em geral, houve momentos em que um bloqueio foi perdido e quando um corte seguiu o caminho errado, levando a um membro golpeado. Mas nenhum deles hesitou ao longo de todo o embu.

Isso me trouxe à mente uma história que eu ouvi uma vez do falecido Dr. Sachio Ashida, um professor de judô (e professor de comportamento animal, daí a denominação de Doutor). Perguntei-lhe como era o Judo antes da guerra. Ele disse que era mais como um budo, menos como um esporte. Para dar um exemplo, ele disse que uma vez viu uma demonstração de Nage no Kata em um All Japan Judo antes da Segunda Guerra Mundial, onde o imperador estava na plateia. Ashida sensei estava num camarote. Ele viu dois mestres de judô realizarem um kata. Durante o kata, houve uma sutemi-waza, um arremesso em que o tori cai no chão a fim de puxar e jogar o parceiro sobre seu corpo caindo. O uke, no entanto, se desequilibrou e enquanto fazia o rolamento para a frente, Ashida viu claramente que ele inadvertidamente chutou a cara do tori. Mas os dois continuaram o kata como se nada estivesse errado. Eles terminaram, cumprimentaram-se, fizeram a reverência ao imperador e sairam do palco. Ashida disse que só depois de terem deixado o palco, a pessoa que executou o tori cuspiu o seu dente da frente que o chute tinha arrancado no meio do Embu.

“Esse era o espírito do judô real”, disse Ashida.”Naqueles dias, fazer embu era vida ou morte, especialmente se você fez isso na frente do imperador.”

Para que não pareça que eu estou defendendo um retorno a esse tipo de dureza física, o que eu quero dizer é que, mesmo hoje em dia, embu deve ser considerado um assunto sério e profundo, que deve ser um desafio para os participantes.

Durante o treinamento regular, você deve manter o sentimento e atitude adequados, para ganhar habilidade e sua movimentação funcione. Para que o seu trabalho com armas ou desarmado atinja um nível de combate real, mesmo que habilidades de combate sejam arcaicas atualmente. A atitude mental adequada só acontece se você vivenciar o treino de kata além da diversão e brincadeira. Realizar Embu tem essa atmosfera multiplicada muitas vezes por causa da pressão envolvida ao fazer o kata na frente de estranhos, seu instrutor e colegas de treino.

Inevitavelmente, por causa dessa pressão adicional, você vai falhar. Como você reage, também é um desafio que o treino adequado e Embu oferecem. Como em uma situação de combate real, nem tudo vai de acordo com o kata. O que acontece quando o kata falha, seja por circunstâncias externas (como escorregar na grama molhada) ou por erro humano (como o seu parceiro indo para um lado em vez do outro)? A pessoa mal treinada vai ficar simplesmente paralizada. Mas fazer isso no Embu ou na vida real vai te matar, mesmo que apenas simbolicamente.

Eu estava assistindo dois espadachins passar por um kata estranhamente longo durante seu Embu. Ao término, eu disse ao estudante Junior (que era o “tori”), “Cara, que kata interessante. Eu nunca tinha visto um tão longo em seu estilo:

Demorou  muito porque o meu sensei estava totalmente desligado. Acho que ele tinha muita coisa na cabeça, ele entrou de forma errada, a partir de um kata diferente, então eu tive que bloquear o corte e reagir. Eu olhei em seus olhos e ele estava perdido. Acho que ele estava pensando muito sobre outra coisa. Então ele viu o meu corte, e ele apenas reagiu e tentou bloquear e cortar, então eu tentei outro bloqueio e outro corte, e ele reagiu, então eu reagi, e apenas continuei até que eu finalmente o atingi … com força … no pulso. Isso meio que tirou seu transe.

Você sabe que realmente treinou bem quando você pode se recuperar de imprevistos sem hesitar. Eu ouso dizer que, apenas alguns dos meus alunos, até agora, alcançaram esse nível, mas tenho certeza que se eles continuarem treinando, eles podem chegar lá, desde que eles tenham a atitude correta.

Um Embu vale mil sessões de treinamento.

Quando eu fui convidado pela primeira vez para participar de um Takeuchi-ryu Embu, eu lembro do meu professor me falando de provérbio acima. Ele me incentivou a fazer o Embu, sobre os erros que fariam parte e como eu aprenderia com eles. De fato, se feito com que a mente de “ir para a batalha.” Se for encarado com toda a seriedade e senso de propósito necessária.

Uma oportunidade para todos, jovens e velhos, qualificados e experientes ou iniciantes, a desafiar-se igualmente sem ter um único vencedor e sem relegar o restante a ser “perdedor”.

Adaptado do artigo Embu: going into battle publicado originalmente no blog Classic Budoka.

A tradição da demonstração de artes marciais

Embu pode ser traduzido como uma “apresentação de habilidades marciais.” O que evoluiu para se tornar uma demonstração pública do estilo característico. Às vezes é apenas um dojo. Às vezes vários grupos se reúnem em grandes encontros anuais. Nesses eventos não há participação direta do público.

Por mais divertido que seja estar num Embu, por mais que seja maravilhosa a camaradagem que se cria entre os companheiros de dojo e até mesmo com pessoas de outros koryu, os Embu são assuntos sérios. Você está demonstrando para pessoas de fora, o melhor de suas habilidades, como representante de seu ryu. No koryu atual, este é o mais próximo que se pode chegar de um situação estressante competitiva em público, desde que os aspectos esportivos do koryu foram adaptados para judô, kendô e outros shinbudo modernos.

Embu, provavelmente, remonta a uma época em que as escolas de artes marciais ainda eram relativamente relevantes em habilidades aplicáveis ​​em combate para guerreiros em treinamento. Considerando que você nunca sabia qual província você podia acabar lutando na próxima guerra civil, ou quais grupos de samurais. Um dojo normalmente guardava suas técnicas do público em geral a maior parte do tempo. Você não queria mostrar a assinatura de seus métodos e táticas para inimigos potenciais ou eles poderiam usar isso contra você mais tarde.

A única exceção geral para isso era quando você era convidado a ser parte de uma “demonstração oficial”, na frente de um senhor daimyo ou da realeza ou como oferenda às divindades da vila, ou alguma outra ocasião especial semelhante. Devido a essa característica histórica, embu é considerado um assunto respeitoso e sério.

Neste vídeo, há um grande número de expectadores. Para os participantes, no entanto, uma grande pressão é colocada sobre eles e não apenas porque muitas pessoas estão assistindo, mas porque as próprias divindades estão assistindo, eles estão realizando embu como oferenda aos espíritos. E, claro, há a pressão prática de não fazer papel de bobo na frente de outros praticantes que conseguem notar as suas falhas.

Adaptado do artigo Embu: going into battle publicado originalmente no blog Classic Budoka.

O significado de Onegai Shimasu

Onegai shimasu” é uma frase difícil de traduzir diretamente para o português. A segunda parte “shimasu” é basicamente o verbo “suru“, que significa fazer, conjugado no tempo presente. “Onegai” vem do verbo “negau“, que significa literalmente orar por (algo) ou desejar (algo). A partícula “O” no início é o honorífico que torna a frase mais respeitosa. É claro que nós nunca diríamos essa frase em particular sem ele, mas é isso que ele representa. (Não confunda esse “O” com o “O” em O-sensei. O de O-Sensei é realmente “Oo”, significando grande ou grandioso).

Na cultura japonesa, usamos “onegai shimasu” em várias situações diferentes. A conotação básica é o sentimento  de boa vontade em relação ao encontro num futuro próximo das duas partes relacionadas. Por isso, às vezes é como dizer:

Eu estou esperando que nosso relacionamento traga boas coisas no futuro.

Usa-se isso durante comemoração de ano novo, dizendo “kotoshi mo yoroshiku onegai shimasu” que pode ser traduzido do japonês como:

Espero que este ano nossos laços se fortaleçam.

Ou ainda

Desejo que nosso relacionamento seja duradouro neste ano.

A expressão também pode assumir a conotação de um pedido de forma polida. Como no nosso uso regular nos treinos: “Por favor deixe-me treinar com você.” É uma solicitação frequentemente usada para pedir a outra pessoa para lhe ensinar, e que você está pronto para aceitar o ensinamento dessa pessoa.

Só uma dica em relação a pronúncia. A sílaba final “su” tem um som parecido com o “s” da palavra gás. O “u” não tem um som muito evidente.

Referências:
About.com
Aikiweb
Centro de Difusión del Aikido

O Silêncio

Capa da edição brasileira

Capa da edição brasileira

Este obra entrelaça de forma muito viva dois temas bastante familiares a maioria dos aikidocas brasileiros: Cultura japonesa e Cristianismo.

O livro aborda o trabalho dos missionários portugueses no Japão, nos séculos XVI e XVII. Nele é narrada a história do Padre Rodrigues, um jesuíta português que partiu para o país do sol nascente procurando um outro missionário, o padre Ferreira, seu mentor, de quem se dizia ter apostatado, ou seja, renegado a fé cristã.  Depois de ter chegado ao Japão e acompanhar os camponeses de uma pequena aldeia cristã, foi denunciado, preso, torturado e é atormentado pelo resto da sua vida.

Apesar de ficcional, estão presentes no texto vários personagens e situações reais. A edição brasileira contém, inclusive, alguns apontamentos sobre os fatos fictícios. Mais do que um relato parcialmente histórico, O Silêncio levanta questões universais sobre tolerância e diversidade cultural, além de fomentar a reflexão sobre nossas próprias convicções e em que medida somos fiéis a elas.

 


Shusaku Endo, falecido em 1996 foi um dos mais conceituados escritores japoneses do século XX. Seus contos e romances foram aclamados tanto por críticos quanto pela opinião popular no Japão e outros países. Como romancista católico, Endo era frequentemente chamado de “o japonês Graham Greene.” Entre suas principais preocupações temáticas estão o conflito de identidade entre os católicos japoneses, o choque de culturas entre o Oriente e o Ocidente, a perseguição dos católicos ao longo da história, e a luta interna da fé cristã. Endo recebeu quase todos os principais prêmios literários no Japão, e foi nomeado diversas vezes para o Prêmio Nobel de literatura. (enotes)

Shinenkai 2012

Chegou ao fim o ano de 2011, marcado por desafios, realizações, percalços, boas lembranças e grandes oportunidades para o ano que se inicia. Obrigado a todos por fazerem parte da caminhada. Deixo algumas imagens do passado para nos fazer refletir sobre o que queremos fazer no presente.

Ginásio FUNCEL

Ginásio FUNCEL

Durante a apresentação

Durante a apresentação

Bonenkai 2011

Bonenkai 2011

As aulas na FUNCEL recomeçam na terça-feira, dia 03 de janeiro de 2012 e o nosso Shinenkai será no dia 02 de janeiro as 11h45 no Restaurante Mahatma. Estão todos convidados.

 

Akemashite omedetou gozaimasu

Kotoshimo yoroshiku onegaishimasu