Para que servem os exames de faixa?

Investigar nossas motivações fazem toda a diferença do mundo em determinar como vamos atuar e até que ponto manteremos nossa perseverança. Eu gostaria de expor meu ponto de vista a respeito das motivações para a realização do exame de faixa.

Celebração
Antes de tudo, este é um momento de celebração do grupo. O aikidoka é indicado para o exame de faixa quando demonstra na sua prática diária que tem adquirido maturidade e é plenamente capaz, tecnicamente falando, de realizar os movimentos propostos.

Neste sentido, não é uma avaliação propriamente dita, pois não está sendo verificado o que o aikidoka sabe ou não sabe. Ele já pertence a faixa. É apenas um registro público deste fato. Isso não diminui a importância do evento nem permite que o aluno se apresente de qualquer jeito. O exame deve ser exemplar e refletir sua prática regular. Para a maioria das pessoas, essa tensão torna as coisas um pouco mais difíceis, mas é o que permite a superação pessoal.

Superação
Apesar da possibilidade de eventuais confrontos físicos fora do dojo, é perfeitamente normal passarmos uma vida inteira sem ter que brigar com alguém, sem ser vítima de um assalto ou qualquer outro tipo de agressor. Obviamente não é coerente para um artista marcial se colocar em situações de risco como essas deliberadamente apenas para testar suas habilidades.

Por outro lado, o treinamento constante num ambiente controlado e previsível pode se tornar extremamente artificial. O exame da faixa é uma dentre várias formas de trazer um pouquinho da vida real para dentro do dojo. Apesar de haver um certo controle que leva em conta a graduação e as capacidades individuais de cada aluno, à medida que avança no seu caminho, o exame se torna cada vez mais livre e imprevisível.

Os alunos devem cultivar um estado de espírito para que estejam sempre preparados. Se houver um certo grau de incerteza, os alunos irão mais cedo ou mais tarde se beneficiar disto. Os examinadores estão mais interessados na forma como o aluno lida consigo mesmo em uma situação inesperada (o que revela seu caráter) do que em seu conhecimento técnico no momento.

Patrick Augé Sensei

Assim como na vida real, a reação deve ser imediata. Não dá para parar e repetir como num mero ensaio. Esse estado de espírito diante da imprevisibilidade é fundamental para permitir que uma atitude como Ichi Go Ichi E emerja de uma forma mais natural.

Mostre-me o que você tem quando você não tiver mais nada – … Treinamos em um nível, especialmente em testes, onde exigimos do aluno muito mais do que ele achava que podia fazer. Embora isso possa ser desconfortável em muitos aspectos, treinar desta forma permite que cada pessoa tenha uma chance muito maior de sobrevivência caso enfrente alguém ou algum evento que possa colocar sua vida em risco.

Larry Reynosa Sensei

Cultivar uma atitude como essa, ainda é extremamente útil nos dias de hoje nas mais diversas situações corriqueiras, não apenas para eventuais confrontos físicos. Esse tipo de superação é facilmente identificável num colega de trabalho diligente, em qualquer pai que ama os seus filhos ou num ativista que vive por seus ideais. Dando um exemplo bem específico, qualquer um que já presenciou um parto normal sabe que costuma ser algo muito mais extenuante e doloroso do que um exame de faixa.

Portanto, a aquisição desses benefícios a longo prazo e a descoberta do que se é realmente capaz de fazer, é uma evolução motivada pelo processo.

Evolução
Com a expectativa do evento e a preocupação em ser capaz de refletir a prática diária em qualquer situação, os períodos que precedem os exames de faixa são caracterizados por um treinamento mais intensivo. Isso inevitavelmente leva a um refinamento técnico, um ganho na condição física como um todo e em muitos casos a uma transformação da atitude pessoal, visto que o praticante é levado a enfrentar alguns de seus medos e apesar do exame em si ser algo bastante individual, ele não está sozinho durante todo o processo em que precisa do apoio do grupo para treinar e demonstrar suas técnicas.

Na verdade, a evolução se dá de forma coletiva. O examinado é influenciado em maior ou menor grau pelos seus colegas de treino, reflete isso na sua prática e portanto representa todo o grupo. Poder cooperar com este processo de crescimento é bastante enriquecedor. Através do exemplo individual de cada examinado é possível buscar inspiração para o seu próprio caminho.

Cooperação
Uma das formas mais eficientes de transmissão de conhecimento. Se você acredita no que faz e compartilha isso com todos, isso se torna contagiante e inspirador, criando assim um círculo virtuoso.

O exame de faixa é uma grande oportunidade de aprendizado para todos, independentemente se são mais novos ou mais velhos que o examinado.

Se a gente deposita uma gota d’água sobre uma rocha ao sol, ela logo se evapora. Se a gente joga essa mesma gota num oceano ela nunca se perde. Portanto, o desejo é que não guardemos os ensinamentos para nós mesmos, em vez disso, usemos em benefício dos outros.

Pema Chödrön
Os lugares que nos assustam

Estar consciente que o seu exame afeta não apenas você mas todo o seu grupo é um passo importante para reconhecer suas responsabilidades.

Responsabilidade
Por todos os motivos já apresentados até aqui. O exame de faixa é também uma declaração, perante o grupo, que o aluno está consciente do que tem recebido e de sua crescente cumplicidade em relação aos demais.

Ele aceita ser celebrado pelo grupo. Ele se submete voluntariamente e com humildade ao imprevisível para buscar sua superação. Ele reconhece que sua evolução ao longo dos treinos é um processo interativo, ou seja, ao mesmo tempo que ele cresce por absorver cada vez mais o que os outros lhe mostram, ele também tem mais a oferecer à medida que o tempo passa e por isso é responsável pelo que os outros possam vir a aprender no seu convívio.

Tudo isso remete aos valores fundamentais do budo, também simbolizados nas dobras do hakama. Uma tradição construída ao longo dos séculos.

Tradição
Ter a chance de passar por um exame de faixa é honrar a lembrança dos que vieram antes de nós e perpetuar uma prática que julgamos coerente com nossos princípios. Admitindo que somos apenas uma ínfima parte de uma longa linhagem. Uma linhagem de algo grandioso.

Por tudo isso, o exame não deve ser encarado como uma simples prova de habilidades que classifica as pessoas em níveis ou que determina onde elas devem sentar ou que cor de faixa elas devem usar.

Avaliação
Se existe qualquer tipo de avaliação no sentido mais estrito da palavra, o examinado é o próprio instrutor. Apesar de cada um ser responsável por seu próprio caminho, a condução do grupo é sua atribuição e à medida que mais e mais aikidokas passam por esse processo é possível identificar cada vez mais claramente o estilo, as falhas, as virtudes e a atitude presente no Sensei, como ele próprio é moldado pelo grupo e na forma como administra o tempo investido nos treinos.


O real valor em se treinar Aikido é a oportunidade de construir algo que possui uma aplicação prática em outras áreas da sua vida. Durante o exame é um dos momentos em que se pode sentir essa conexão de forma mais intensa. Tente manter-se consciente a respeito disso, sem esquecer inclusive de ficar relaxado.

Prática honesta

Um ladrão
Estou praticando com outro estudante. Alguém está conduzindo o treino, tentando fornecer as informações e práticas necessárias para, eventualmente, “possuir” a técnica do momento.

À minha esquerda tem uma faixa branca, um novo aluno faixa verde tem praticado conosco há alguns meses. O faixa branca está tendo problemas com a técnica. O faixa verde começa a ajudar, dizendo a faixa branca como corrigir o problema. Soa familiar? Em pouco tempo, o faixa branca passa a ter uma sessão de treinamento particular – muita conversa com pouca ação. O instrutor auto-declarado é um ladrão! O faixa verde tem a melhor das intenções, mas arrancou o aluno do treino, o professor do aluno, e o tempo da prática. Além disso, faixa verde raramente ensina. Eles têm muito a aprender e até mesmo com as melhores intenções, pouco a ensinar.

Um impostor
Estou praticando com outro estudante. Alguém está conduzindo o treino, tentando fornecer as informações e práticas necessárias para, eventualmente, “possuir” a técnica do momento.

O instrutor explica um conceito e um estudante à minha esquerda faz uma pergunta. Ele começa a frase com: “Então você quer dizer que …” com uma reformulação do que o instrutor já disse. Dá para notar que a questão não é uma pergunta honesta porque carrega uma expressão de dúvida. O aluno não quer saber a resposta. O estudante queria o reconhecimento pela compreensão, pela participação. Este estudante está fingindo estar interessado no que o professor tem a dizer, mas realmente quer ser percebido como alguém com conhecimento. O ego está no comando.

Outro aluno faz uma pergunta. O instrutor responde à pergunta, mas dá para ver que o aluno não está satisfeito com a resposta. O estudante reitera o que um instrutor anterior declarou. Este aluno quer que o instrutor (e os outros alunos) saibam que existem outras opiniões sobre como isso deve ser feito. Este estudante está fingindo contribuir com informações adicionais, mas na realidade, ele tem dúvidas sobre o instrutor. O ego está no comando.

Começamos a prática. Foi passada uma série específica de movimentos e todo mundo faz apenas o que foi pedido. Depois de um tempo uma dupla de estudantes começar a mudar o que estão fazendo. Outro par está parando para discutir cada sucesso e fracasso, e todo mundo acha que eles são muito ativos e participativos. Bem, sim, eles são. Mas cada um tem sua própria “agenda”. Eles estão se colocando como estudantes interessados, mas, na verdade, estão interessados ​​em gratificação pessoal e imediata. Eles não estão praticando, pois eles estão se exibindo. O ego está no comando.

Uma vítima
Estou praticando com outro estudante. Alguém está conduzindo o treino, tentando fornecer as informações e práticas necessárias para, eventualmente, “possuir” a técnica do momento.

Um estudante à minha esquerda queixa-se de um problema com a técnica. O instrutor sugere uma solução e pede aos alunos para tentar novamente. O estudante tenta, exagerando o problema ao mostrar o quanto é difícil. O instrutor sugere outra solução. O aluno quer que a técnica perfeita apareça como um passe de mágica, sem esforço. Uke enfraquece o ataque para dar uma melhor chance ao Nage. Nage é mais capaz agora, e bem sucedido contra um ataque menos eficaz. Nage se sente melhor, enquanto a técnica sofre. Nage e Uke trocam suas posições. O praticamente que havia sido Nage ataca de modo que a técnica aplicada exige uma queda truncada. Quando o aluno reclama do excesso de força, Nage reduz o foco do ataque para poupar Uke. Uke finge a queda. A técnica sofre, o risco é removido, e a realidade desapareceu. O aluno pode ficar bem na fita (para alguns) sem se sentir ameaçado e sem incomodar ninguém. O aluno é uma vítima – uma vítima do desejo de obter algo sem dar nada em troca.

Um charlatão
Estou praticando com outro estudante. Alguém está conduzindo o treino, tentando fornecer as informações e práticas necessárias para, eventualmente, “possuir” a técnica do momento.

Quando a prática se torna mais difícil, fica trabalhosa demais para um estudante à minha direita. O aluno precisa de um copo de água. O parceiro desse aluno tem que esperar até a volta do aluno, e eles começam a praticar novamente. O aluno assume o papel de Nage. O parceiro é um bom Uke, atacando de forma sincera, mas o Nage não se voluntariar para ser Uke. O professor seleciona uma outra técnica e uma mudança de parceiros. O aluno assume novamente o papel de Nage. Depois de um tempo o professor grita: “Troquem as duplas” e o tal aluno precisa de outro copo de água. Lembro-me deste ser o aluno que sempre chega logo após o fim da faxina do dojo, na manhã de sábado. Este é também o estudante que teve que sair um pouco antes do projeto que estava planejado desde a semana passada. Mas esse aluno é um político de alto nível – um estudante maravilhoso de ter por perto, a menos que você exija alguém que esteja disposto a “andar o caminho (walk the walk)”.

Então, quem é esse aluno?
Provavelmente todos nós. O ladrão, o impostor, a vítima e o charlatão são a besta interior, o ego. Aquele pedaço de nós que está sempre em busca de gratificação, afago, moleza e reconhecimento.

Nós somos todos ladrões. Todos nós queremos o reconhecimento, por isso roubamos um pouco do tempo de todos para obtê-lo, mesmo que seja de alguém que ainda não sabe o que está acontecendo. E todos nós temos nossos joguinhos mentais quando somos o impostor. Nossa mente é uma coisa maravilhosamente inteligente e enganadora. Ela chega a nos fazer pensar que estamos sendo honestos. Mas raramente é uma mente aberta. Nosso copo raramente está vazio. Nossos egos nos impedem de nos submetermos à vontade dos outros. Isso ajudou a sobrevivência da espécie, mas é um desastre no processo de aprendizagem. Muitas vezes encarnamos o papel de vítima. A mente está sempre procurando o caminho mais fácil. Se acreditarmos no que sentimos, a mente vai nos fazer sentir que o caminho de menor desconforto e maior gratificação é a única opção. Mentimos para nós mesmos para justificar a mentira que compartilhamos com os outros. O charlatão é um ladrão muito hábil, que também é um impostor e se justifica pondo a culpa no mundo ou nos outros.

É terminal? Não mais do que a vida. Mas devemos estar preparados, porque todos nós somos alunos. Nenhum de nós está imune a nossas próprias mentes. Devemos sempre verificar os nossos motivos – verificar nossa verdadeira motivação quando agimos (ou reagimos), porque estas são apenas algumas das formas que a besta interior da “justificativa” vai assumir. Na verdade, enquanto você lê isto, você vai lembrar de ter visto alguns desses alunos sobre o tatame. Mas você se lembra de vê-los no espelho? Não se sua besta interior está no comando.

Mas o Aikido não é justamente a respeito disso? Nossa prática nos dá uma oportunidade de expor a fera, onde podemos identificá-la, desnudá-la, e esmagá-la até a morte. Então podemos calar a boca e praticar. Claro que ela vai estar de volta em outra forma, mas e daí? Esta é uma busca ao longo da vida inteira.

Publicado originalmente em inglês por Jim Zimmerdahl.

Agente de viagens

Assim como Paulo Freire, eu também acredito que ninguém ensina ninguém. Eu gosto de pensar no “professor” como um agente de viagens:

Quando vamos a um agente de viagens, ele não nos diz para onde ir. Ele descobre primeiro o que estamos procurando:

– Estão mais interessados sobre o clima ou a paisagem ou talvez em ver novas culturas ou conhecer museus e se divertir?

– Querem viajar sozinho ou com outros?

– Será que gostam de multidões ou querem ficar longe delas?

– Quanto tempo e dinheiro querem gastar?E assim por diante…

Tendo alguma ideia do que estamos procurando, ele faz algumas sugestões. Veja esta viagem, ela terá tanto tempo e tal custo, tem isso e aquilo. Até que nós escolhemos, não ele. Então, ele nos ajuda com os preparativos de viagem e hotel, providencia passagens e as informações que precisamos e finalmente estamos prontos para começar. Seu trabalho está feito. Ele não tem que fazer a viagem conosco. Na pior das hipóteses, ele nos dá um questionário para preencher quando voltarmos, para ter certeza de que fomos aonde dissemos que iríamos ou se a viagem saiu como o esperado. Se alguma coisa deu errado, ele vai querer ouvir sobre isso, para nos ajudar e ajudar outros clientes a planejar melhor no futuro. Caso contrário, o que aconteceu durante a viagem e o quanto aproveitamos é problema só nosso.

John Holt

Quando você procura uma agência de turismo, o interesse inicial é seu. Na verdade, você pode até planejar e viajar por conta própria sem contratar ajuda. Isso inclusive é mais do que normal. Porém, o agente, possui conhecimento que pode tornar sua experiência mais prazerosa e evitar alguns percalços. É claro que algumas coisas serão iguais para todos. Qualquer um que for passar férias em São Luis irá passar calor, por exemplo. Mas alguns podem preferir ir a um clube de reggae, outros ao shopping, outros ao museu ou ainda em todos esses lugares.

E o questionário final, obviamente não é um exame para o turista. Já pensou reprovar o turista porque ele não viajou do jeito certo? Não, se alguém está sendo avaliado, é o próprio agente.   Não no sentido de puni-lo ou premia-lo, mas apenas para permitir registrar os resultados do seu trabalho.

Certamente, o seu Sensei tem mais discernimento para julgar quais técnicas devem ser vistas primeiro, quanto custará para um aikidoka inciante se arriscar a fazer uma queda nova ou qual é a etiqueta adequada para cada situação. Contudo, o Aikido é uma viagem pessoal que abrange vários aspectos  e cabe a cada um escolher e trilhar o seu próprio caminho.

O caminho em Aikido

Algumas reflexões sobre o que significa praticar e ser um aikidoca.

DO, a segunda metade da palavra AIKIDO, simboliza tanto um “caminho” particular que a pessoa percorre, como um “modo de vida” universal baseado em princípios filosóficos. Os que trilham o caminho do Aikido vestem um tipo especial de roupa, meditam de uma certa maneira e praticam técnicas características. Esse é o caminho cultural do Aikido, o contexto da prática baseado nos ideais e técnicas clássicas do fundador, Morihei Ueshiba. O modo de vida do Aikido abrange o espectro mais amplo da vida – como convivemos com outros seres humanos fora do estreito mundo do dojo, como nos relacionamos com a sociedade como um todo e como tratamos a natureza.

John Stevens Os segredos do Aikido

Esse modo de encarar vida pode iniciar quando você quiser, mesmo que você não pratique Aikido. O caminho particular pode apenas servir como uma forma de enxergar mais facilmente esses princípios. Contudo, ele não tem um ponto de chegada. Existe uma expressão em japonês – Shugyo – que representa esse percorrer do caminho durante toda a vida. Ao olhar mais de perto esse modo de encarar o mundo, é inevitável pensar na semelhança com Os Rios Norte do Futuro:

… Dentre os poemas de Paul Celan, Illich admirava especialmente The Rivers North of the Future. No qual falava de algo esperado, um “ainda não”, um tempo e um lugar que não pode ser alcançado simplesmente ao se projetar a partir do presente, tendo em vista que ele está ao norte do futuro. E mesmo nessas águas inacessíveis, as redes que podem ser lançadas são sobrecarregadas com “sombras de rochas esculpidas”, o peso de tudo o que já passou.

David Cayley

Para se manter nesse caminho, é preciso estar consciente da nossa condição eternamente desajustada, respondendo a cada situação da forma mais adequada dentre dos princípios que se segue. Sem se acomodar e questionando mesmo as certezas mais fundamentais do nosso tempo.

No seu treinamento, não se apresse, pois é necessário um mínimo de dez anos para dominar os elementos básicos e avançar ao primeiro grau. Nunca se considere um mestre perfeito que sabe tudo; você precisa continuar treinando diariamente com os seus amigos e alunos, avançando juntos no Caminho da Harmonia.

Morihei Ueshiba Ô-Sensei

Ser aikidoca é justamente buscar incessantemente esse equilíbrio dinâmico, sem regras imutáveis e respostas prontas.

Aikido e agricultura orgânica

Como havia falado no relato sobre meu exame de primeiro kyu realizado no mesmo dia de um dos mutirões de horta comunitária; o respeito pela criação e a auto-suficiência foram determinantes para existência do Aikido como conhecemos hoje. O próprio termo (comumente traduzido como o Caminho da Harmonia) foi oficializado em 1942 quando Ô-Sensei já havia demonstrado claramente sua preferência por um estilo de vida mais simples, fora da cidade grande e não apenas próximo à natureza; mas totalmente integrado a ela.

A gente sabe pelos seus escritos e relatos pessoais que o seu budo se tornou progressivamente voltado para o cultivo e a criação, na tentativa de revolucionar a velha visão de budo como um meio de destruição. Assim como um fazendeiro precisa lavrar, revolver e limpar a terra; seu objetivo final é promover a vida… A agricultura pode ser uma metáfora bastante útil para muitas empreitadas.

Ross Robertson
músico

A consolidação das técnicas e bases filosóficas do Aikido foram construídas em Iwama. Esse foi o lugar eleito por Ô-Sensei como berço do Aikido e é formado basicamente por um espaço para cultivo (jardins e hortas), um espaço para cultura (um dojo ao ar livre), um lugar para o culto (um pequeno santuário) e finalmente um lugar para repouso (uma casa modesta).

Ô-Sensei acreditava que artes marciais e agricultura eram a mesma coisa e seus discípulos deveriam enfrentar longas horas de treino nos cultivos desde manhã bem cedo até o meio-dia se quisessem praticar Aikido nas aulas vespertinas. O próprio Ô-Sensei foi um agricultor por um bom tempo em Hokkaido.

Ô-Sensei costumava dizer que o caminho do Samurai era cuidar da população da mesma maneira que o caminho do agricultor era cuidar de suas plantas e animais. Ambos deveriam ser guiados pelo mesmo espírito de proteção e cuidado em relação aos seus entes queridos. Em várias ocasiões ela falava sobre Aikido e Agricultura como “O Caminho do Amor” tendo em vista que o amor é a mais forte de todas as forças do universo. Muitos de seus discípulos, especialmente aqueles que não tinham contato com o campo, tinham grande dificuldade de captar este conceito.

José Luiz Moreira Garcia
Agrônomo e produtor orgânico

Fica claro que na visão do fundador, a sua arte não é apenas um conjunto de técnicas físicas, mas um caminho de integração para as pessoas e com o próprio mundo. Nesse contexto, o contato direto e o cuidado com a terra é fundamental. Entretanto, à medida que o Aikido foi se consolidando nas cidades, isso foi sendo abandonado, como destacou o aikidoca José Luiz Moreira Garcia.

Essa sabedoria pode ser resgatada a qualquer momento. Mesmo morando na cidade é possível preservar o vínculo com a terra e isso pode ter implicações muito mais diretas do que se pode imaginar.

Eu comecei um pequeno jardim e trabalhava nele quatro horas por dia. Eu percebi que quando ia para o treino nos dias que cuidava do jardim, meu treino era mais maleável e flexível. Quando eu não cultivava era mais rígido. Tenho sessenta anos de idade e preciso prestar bastante atenção para o que meu corpo está me dizendo.

Também senti que o tenchi da jardinagem está diretamente ligado ao meu treino. Eu utilizo a técnica de carpir de John Jeavons (meu Sensei da jardinagem) e aos poucos eu comecei a dar vida a ponta da minha enxada, pá e rastelo. Eu conduzia a energia do meu corpo através deles, sentindo a própria terra. Eu dobrava minha perna da frente, mantendo minha coluna reta. Descobri que poderia fazer isso a manhã inteira, respirando da mesma forma que fazemos durante um treino.

Foi aí que percebi que agricultura e Aikido são a mesma coisa. A energia vital é idêntica. Obtive esta informação com meus próprios sentidos. Estou certo de que é essa energia que Ô Sensei nos guia para que possamos liberá-la através da arte do Aikido. Ironicamente, meu treino com armas mudou.

Chiba Sensei dizia que eu não podia treinar com armas porque parecia que eu queria matar meu parceiro durante a prática. Fiquei um ano sem tocar no jo, bokken ou katana. Enquanto isso, fui passando a enxergar pá, rastelo e enxada com ternura e sensibilidade. Também foi se tornando algo mais poderoso e eficiente. Quando pude retornar às armas elas haviam se tornado leves e belas. Eu era capaz de desferir golpes rápidos, porém suaves.

O vínculo entre o jardim e Aikido é muito dinâmico. Meu sonho é poder abrir um dojo onde os alunos possam praticar agricultura como parte do treinamento e possam sentir a energia vital que vem da terra e nos alimenta.

Bob Burns
San Diego Aikikai

Num mundo onde os alimentos naturais mais básicos estão cada dia mais distante da realidade das nossas crianças, recebem doses cada vez maiores de venenos, são cada vez mais caros, perdem nutrientes e diversidade e os pequenos produtores são esmagados por cadeias de hipermercados. Num mundo como esse, é essencial que artistas marciais lutem para reduzir a violência e produzir harmonia, através do resgate do cultivo.

A parábola da faixa preta

Parábola interessante para qualquer um que já acreditou que chegou ou está chegando no fim do caminho.

Imagine um lutador de artes marciais ajoelhado na frente do mestre sensei, numa cerimônia para receber a faixa preta obtida com muito suor. Depois de anos de treinamento incansável, o aluno finalmente chegou ao auge no êxito da disciplina.

“Antes que eu lhe dê a faixa você tem que passar por outro teste” , diz o sensei.
“Eu estou pronto”, responde o aluno, talvez esperando pelo último assalto da luta. “Você tem que responder à pergunta essencial: qual é o verdadeiro significado da faixa preta?”
O fim da minha jornada“, responde o aluno, “uma recompensa merecida pelo meu bom trabalho”.
O sensei espera mais. É óbvio que ainda não está satisfeito. Por fim, o sensei fala: “Você ainda não está pronto para a faixa preta. Volte daqui a um ano.”

Um ano depois, o aluno se ajoelha novamente na frente do sensei.
“Qual é o verdadeiro significado da faixa preta?”, pergunta o sensei.
“Ela significa a excelência e o nível mais alto que se pode atingir em nossa arte.” responde o aluno.
O sensei não diz nada durante vários minutos, esperando. É óbvio que ainda não está satisfeito. Por fim ele fala: ” você ainda não está pronto para a faixa preta. Volte daqui a um ano.”

Um ano depois, o aluno se ajoelha novamente na frente do sensei e mais uma vez o sensei pergunta: “qual é o verdadeiro significado da faixa preta?”
“A faixa preta representa o começo – o início da jornada sem fim de disciplina, trabalho e a busca por um padrão cada vez mais alto.” , responde o aluno.
“Sim. Agora você está pronto para receber a faixa preta e iniciar o seu trabalho!”

Enviado por Marcio Sensei por email

As duas primeiras respostas são formas de pensar bastante comuns, seja você um aikidoca ou não. Para muitos, a “faixa preta” simboliza uma meta a ser alcançada. Um fim em si mesmo.

Essa parábola nos faz refletir sobre os momentos de estagnação que passamos quando nos encontramos numa zona de conforto. Contrariando um dos maiores princípios da natureza, o ciclo constante de renovação, passando inclusive pela fase de destruição (de ideias estabelecidas, práticas consolidadas, conceitos adquiridos, hábitos inconscientes, atitudes passivas…).

…na verdade, a faixa preta é o primeiro degrau. É como aprender a ler e depois nunca mais abrir um livro.

Masafumi Sakanachi
O desafio do conflito

Se a faixa preta simboliza algo, certamente não é privilégio, status ou um mérito alcançado. Ela simboliza disciplina e compromisso que devem estar refletidas em cada ação do cotidiano. Por isso não se ganha a faixa preta, nem se possui a faixa preta. Pode-se apenas ser faixa preta, para cada nova situação enfrentada, dia após dia.

Um dia de exame

Este foi um dia de exame diferente, não apenas porque todos os exames eram para primeiro kyu e a minha mãe (que mora a 4.000km de distância) pode me dar o grande presente de estar presente. Mas também porque eu pude passar a manhã inteira trabalhando numa horta comunitária antes de realizar o exame.

Aikido é cultivo

Aikido é cultivo

Esse é um fato especial porque além de serem duas das minhas atividades preferidas (praticar Aikido e cultivar com amigos e familiares), eu pude me aproximar da concepção original do Aikido. Falarei disso com mais detalhes em outro momento, mas para dar um exemplo do que eu estou falando, em Iwama, o local escolhido por Ô-Sensei para montar seu dojo e sentuário, os uchideshis tinham que carpir e cuidar da horta pela manhã antes de poder praticar Aikido no período da tarde e Ô Sensei afirmava com frequência que:

Aikido é budo e agricultura.
Aikido e cultivo são a mesma coisa.

Morihei Ueshiba
Ô Sensei

Montando a cerca

Montando a cerca

Grupo da horta

Grupo da horta

Ter a possibilidade de me aproximar desta visão e prática é muito importante para mim. Nossa Sensei costuma falar que precisamos ter confiança em nós mesmos, sem permitir que isso se torne arrogância. Poder compartilhar tudo isso com meus companheiros do Shoshin, com amigos e com minha família reforçou minha confiança.

Afinal de contas, o importante não é passar no exame de faixa. Errar é natural e todos fracassam mais cedo ou mais tarde. O verdadeiro desafio é bater a poeira, ficar de pé e tentar de novo. E se tem algo que aprendemos no Shoshin Dojo é cair e levantar. E com certeza, faz todo diferença do mundo quando não se está sozinho.

Obrigado a todos, especialmente minha esposa e filha – fontes contínuas de energia e inspiração, que acreditaram em mim e meus companheiros examinados. Obrigado pela presença, pelo incentivo, pela inspiração e pela torcida de longe.

Domo arigato

O caminho natural – Ueshiba e Fukuoka

Masanobu Fukuoka nasceu e viveu no Japão mais ou menos no mesmo período que Ô-Sensei, Morihei Ueshiba. Portanto conheceu a guerra e as transformações que seu país passou com a ocidentalização da sua cultura.

Assim como o criador do Aikido, Fukuoka foi iluminado e criou um caminho baseada na harmonia. Apesar de falar de agricultura e não de artes marciais, existem algumas similaridades entre os princípios defendidos por esses dois mestres.

Assim como no Aikido, onde usamos a energia do nosso agressor para neutralizar o ataque. Na agricultura de Fukuoka, nós  devemos nos adaptar e permitir que a plantação siga seu caminho natural. Também é ensinado que precisamos servir a natureza. Samurai significa “aquele que serve”.

E após décadas de observação e muita reflexão, Fukuoka resolveu compartilhar com o mundo o que ele havia aprendido. Assim como Ô-Sensei, Fukuoka percebeu que o que ele passou a vida estudando e aprimorando era muito mais do que um conjunto de técnicas mas um caminho espiritual.

O objetivo final da agricultura não é o cultivo e a colheita, mas a cultivação e o aperfeiçoamento de seres humanos.

Masanobu Fukuka

Masanobu Fukuoka

Masanobu Fukuoka

Masanobu Fukuoka

Masanobu Fukuoka nasceu em 1914 em uma pequena aldeia agrícola na ilha de Shikoku no sul do Japão. Ele foi educado em microbiologia do solo e trabalhou como um cientista especializado em patologia vegetal, mas com a idade de vinte e cinco ele começou a ter dúvidas quanto à “maravilhas da agricultura moderna ciência.”

Enquanto se recuperava de um grave ataque de pneumonia, Fukuoka experimentou um momento de Satori ou iluminação pessoal. Ele teve uma visão na qual algo que pode ser chamado de verdadeira natureza lhe foi revelado. Ele viu que todas as “realizações” da civilização humana é insignificante perante a totalidade da natureza. Ele viu que o homem havia se tornado separado da natureza e que as nossas tentativas de controlar ou mesmo de compreender todas as complexidades da vida não só eram inúteis, mas eram tmabém auto-destrutivas. Daquele momento em diante, ele passou sua vida tentando voltar ao estado de ser um com a natureza.

No momento da sua revelação, Fukuoka estava morando em um Japão que estava abandonando a sua agricultura tradicional e adoptando métodos ocidentais na agricultura, economia e indústria. Ele viu como esta tendência estava conduzindo os japoneses para mais longe ainda da natureza, e quão destrutivas e poluentes essas práticas eram. Com isso, ele pediu demissão do seu trabalho como cientista pesquisador e voltou para seu pai na fazenda Shikoku, determinado a demonstrar o valor prático de sua visão, devolvendo o solo a uma condição que permitiria que a harmonia original da natureza prevalecesse.

Durante 30 anos de refinamento, ele foi capaz de desenvolver um método da agricultura “faz-nada”. Sem cultivo do solo, tais como aração ou viração da terra, adubos químicos, pesticidas, capina, poda, máquinas ou composto, Fukuoka foi capaz de produzir frutas de alta qualidade, legumes e grãos com rendimentos iguais ou superiores às de qualquer fazenda vizinha.

“Se um único botão é arrancado de uma árvore frutífera com uma tesoura, isso pode provocar uma desordem que não pode ser desfeita …. Os seres humanos com suas interferências fazem algo errado, deixam os danos sem reparo, e quando os resultados adversos acumulam , trabalham com todas as suas forças para poder corrigi-los.”

Para se tornar um com a natureza – a agricultura é uma profissão em que um agricultor se adapta à natureza. Para fazer isso, você tem que olhar em uma planta de arroz irrigado e ouvir as palavras a partir da planta. Se você entende o que diz o arroz, você apenas ajusta o seu coração com o da planta de arroz e cuida delas. Na verdade, não temos de cuidar delas. Elas vão crescer. Nós apenas servimos a natureza. Um pequeno conselho que eu preciso dar. Quando digo, observar uma planta de arroz olhar sua verdadeira forma, isso não significa fazer uma observação ou contemplar a planta do arroz, o que o torna um objeto diferente de você mesmo. É muito difícil explicar com palavras. Num certo sentido, é importante que você se torne a planta de arroz. Assim como você, o sujeito da observação tem de desaparecer. Se você não entender o que você deve fazer ou do que estou falando, você deve ser absorvido em cuidar do arroz sem olhar para o lado. Se você pudesse funcionar inteiramente sem pensar em si mesmo, isso é o suficiente. Abrir mão do seu ego é o caminho mais curto para unificação com a natureza.
Masanobu Fukuoka

Ele criou duas culturas sazonais – arroz no verão, cevada e centeio no inverno – usando apenas a palha da cultura anterior, uma cobertura de trevos e esterco de aves como adubo. Em vez de plantar as sementes e transplantar mudas como na cultura tradicional do arroz, ele espalhou pedaços de argila contendo sementes em solo não arado, suficientemente soltos, por agentes invisíveis da própria natureza, como a minhoca e outras criaturas.

A utilização de trevo branco reduz a quantidade de tempo que o campo é inundado de arroz para uma semana. Ervas daninhas estão autorizadas a brotar, controlada pelo equilíbrio da natureza, incluindo predadores naturais, que também cuida de pragas. “Natureza, se deixada sozinha, está em perfeito equilíbrio”, afirma Fukuoka com uma confiança que vem da experiência pessoal. Cada pecíolo de arroz rende de 200 a 300 grãos, comparado om outras formas de cultivo é muito favorável e o trabalho é reduzido a um quinto.

Ele também criou legumes e frutas para o mercado utilizando técnicas semelhantes.

Nos seus sessenta anos, Fukuoka sentou para documentar o que havia visto e feito. Em 1975 seu primeiro livro One Straw Revolution (Revolução de um palito) foi lançado e teve um profundo impacto sobre a agricultura e a consciência humana em todo o mundo. “One Straw Revolution”, foi seguido por The Natural Way of Farming (O caminho natural da Agricultura) e em seguida por The Road Back To Nature (O caminho de volta a natureza).

Desde 1979, Fukuoka tem viajado, dando palestras e espalhando as sementes da agricultura natural em todo o mundo. Em 1988 foi-lhe dado o Prêmio Deshikottan e o Prêmio Ramon Magsaysay. Em 1997 ele recebeu o Prêmio do Conselho da Terra.

Para Masanobu Fukuoka, produzir comida não é necessariamente o principal objetivo da agricultura.

O objetivo final da agricultura não é o cultivo e a colheita, mas a cultivação e aperfeiçoamento de seres humanos.

Para Fukuoka, a agricultura é um caminho espiritual.

Escrito por Lawrence Haftl