Mente ativa X Mente passiva

O título deste texto é, na verdade, uma tentativa de traduzir os termos “mindfulness” e “mindlessness” empregados na pesquisa em psicologia experimental que a Dra. Ellen J. Langer (Harvard University) vem desenvolvendo desde a década de 70. Podendo ser definidos como:

Mindfulness
Um estado mental flexível no qual se está ativamente ligado ao presente, percebendo novidades e sensível ao contexto. Hábitos podem guiar nosso comportamento mas não predeterminá-lo.

Mindlessness
Ações pré-programadas de acordo com o que o que fez sentido no passado, não no presente. Presas a uma perspectiva rígida sem chances de notar formas alternativas de conhecimento.

De acordo com Langer, para estimular a mente ativa é preciso encarar as coisas com se fossem novas. Quando achamos que já sabemos algo bem ou não questionamos sua validade, tendemos a empregar uma mente passiva. Num dos seus experimentos, dois grupos foram apresentados ao mesmo objeto. Ao primeiro grupo foi dito que aquilo era um brinquedo de mastigar para cães. Ao segundo foi dito que aquilo poderia ser um brinquedo de mastigar para cães. Após algum tempo, surgiu a necessidade de usar uma borracha. Apenas participantes do segundo grupo consideraram usar o objeto como borracha.

Existe poder na incerteza, contudo muitos de nós buscam equivocadamente a certeza.

Ellen J. Langer
Mindful Learning


Esta visão sobre as formas de adquirir ou transmitir o conhecimento reforça a ideia de que realmente existe uma grande limitação na instrução oral específica e demonstra a importância de cada um ser consciente e responsável por suas escolhas.

Tradicionalmente, um instrutor de artes marciais não costuma oferecer explicações extensas ao demonstrar suas técnicas e evita correções constantes (a não ser que haja grandes riscos para quem está treinando). Isso é comumente interpretado como uma certa “avareza” em compartilhar o conhecimento e pode até ser considerado exótico.

Se me tivessem aconselhado a nunca questionar meus mestres, eu não teria durado muito como discípulo…

Pema Chödrön
Os lugares que nos assustam

Contudo, pesquisas científicas como essa da Dra. Langer, provam mais uma vez a coerência da sabedoria oriental. Este é o princípio do espírito Shoshin. Os praticantes são levados a buscar ativamente o conhecimento pelo fato de terem de “conquistá-lo” e não apenas receberem-no de graça, assimilando-o de forma mais profunda e siginificativa. Ao evitar instruções muito específicas abre-se espaço para evolução e adaptação do conhecimento. Uma prova contundente disto é a enorme popularidade (e aplicabilidade) das artes marciais numa sociedade e contexto tão diferente do qual elas surgiram.

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